Fernando Py

Fernando Py

1935–2020 · viveu 84 anos BR BR

Fernando Py é um poeta, ensaísta e crítico literário português contemporâneo, com uma obra que se destaca pela sua profundidade intelectual, rigor formal e exploração de temas como a identidade, a memória, a arte e a condição humana. A sua poesia é marcada por um diálogo constante com a tradição literária e filosófica, aliada a uma sensibilidade aguçada para as questões do presente.

n. 1935-06-13, Rio de Janeiro · m. 2020-05-21, Hospital Santa Teresa, Petrópolis

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Sextina 2

A Cyro Pimentel
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.

O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.

De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.

Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.

Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.

Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.

Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Fernando Py é um poeta, ensaísta e crítico literário português, figura ativa no panorama literário contemporâneo. A sua obra tem sido reconhecida pela sua qualidade e profundidade, explorando a intersecção entre a literatura, a filosofia e as artes visuais.

Infância e formação

Fernando Py teve uma formação académica sólida, que lhe permitiu desenvolver um vasto conhecimento da literatura e da filosofia. A sua educação influenciou a sua abordagem crítica e a sua própria prática poética, marcada por um diálogo erudito com diversas tradições intelectuais.

Percurso literário

O percurso literário de Fernando Py é multifacetado, abrangendo a poesia, a prosa e a crítica. Iniciou a sua atividade literária com a publicação de poemas e ensaios, gradualmente consolidando uma voz singular. A sua obra evoluiu, mantendo um fio condutor de reflexão sobre a arte, a existência e a linguagem. Tem colaborado com diversas publicações literárias e participado em eventos culturais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Fernando Py é caracterizada por uma linguagem precisa e evocativa, explorando temas como a memória, a identidade, a passagem do tempo, a natureza da arte e as relações humanas. O seu estilo é erudito, mas acessível, recorrendo a um vocabulário rico e a uma estrutura formal cuidada. Frequentemente utiliza formas poéticas clássicas, demonstrando um domínio da métrica e da rima, mas também experimenta com o verso livre. O tom da sua poesia pode variar entre o lírico, o contemplativo e o ensaístico. A densidade imagética e a profundidade filosófica são marcas distintivas da sua obra. A sua escrita reflete um diálogo crítico com a tradição literária e uma preocupação com as questões existenciais contemporâneas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fernando Py insere-se no contexto da literatura portuguesa contemporânea, participando ativamente no debate cultural e literário. A sua obra dialoga com as correntes estéticas e filosóficas atuais, abordando temas relevantes para a sociedade contemporânea. Mantém ligações com outros escritores, críticos e artistas, contribuindo para a vitalidade do meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Fernando Py são menos divulgados publicamente, mas a sua obra reflete uma profunda sensibilidade e uma intensa vida interior, moldada pela sua dedicação à arte e ao pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Fernando Py tem sido reconhecida pela crítica e pelo meio literário pela sua originalidade e qualidade. A sua poesia tem sido objeto de estudo e análise, e ele tem sido convidado para participar em festivais literários e conferências, consolidando a sua posição como uma voz importante na literatura portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Fernando Py demonstra uma clara influência de poetas e pensadores que exploraram a relação entre arte, vida e filosofia. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia contemporânea, com uma obra que estimula a reflexão e aprofunda a compreensão de temas universais através de uma abordagem única e erudita.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Fernando Py convida a uma leitura atenta e reflexiva, abordando questões filosóficas complexas sobre a existência, a arte e a linguagem. A análise crítica tem destacado a sua capacidade de entrelaçar o pensamento abstrato com a sensibilidade lírica, criando uma obra de grande profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Fernando Py é também conhecido pelo seu trabalho como crítico literário e ensaísta, áreas que complementam a sua atividade poética e demonstram a amplitude dos seus interesses intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fernando Py é um autor contemporâneo, e a sua obra continua a ser produzida e a ganhar relevo na literatura portuguesa.

Poemas

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Sextina 2

A Cyro Pimentel
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.

O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.

De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.

Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.

Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.

Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.

Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.

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Canto de Muro

A Mário Quintana
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.

Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.

Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.

Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.

1 021

Confissão

A lvan Junqueira
Não direi do desgaste a que me exponho
no trabalho e suor de me conter
sob muros agressivos e silêncio
cuja acidez dentro de mim escalda
e me castiga as vísceras e a pele.
Darei parcos indícios dessa algema
que vai mordendo, abutre, o sangue e os nervos
e me abate e renasce ao infinito.
Percebo presos ao asfalto os pés
e, feras, sobre mim convergem brasas
rugindo. E pedregulhos, galhos de árvore,
limitam-me a visão e me povoam
a memória de cifras e destroços.

967

Morte Íntima

A Eliane Zagury
Quatro sílabas viajam
no rumo de ninguém.
Quatro caladas mágoas
já sem uso em palavras.
Língua cortada, o eco
regressando à origem
que se pressente oblíqua
anterior à linguagem.

A idéia segue a sílaba
em seu perecimento
mantendo-se intranqüila
durante algum momento.
Sejam dias ou séculos
igual será o lamento
desse ruído - som morto
cavado na laringe.

Persista embora o símbolo
constante do alfabeto
os signos não reunidos
jamais na mesma sílaba
lerão palavra idêntica
a essas duas minúsculas
outrora pronunciadas
carreando emoções mágicas.

A morte dessas sílabas
completa a do indivíduo.

902

Após o banho, nua

Após o banho, nua
ainda, o corpo úmido
ao meu encontro, visão,
relembro, cálido êxtase,
os seios entrevistos
no decote frouxo, agora, nua,
toalha molhando-se, ressurgem
após o banho,
fremindo, suave embalo, avidez
de língua e mãos, nua, vens,
perfume, sulcos na pele,
ansiada espera, curvas, a entrega
ao meu olhar, bocas, rosa
túmida, pétala, sucção, espuma,
resplandeces para mim, nua,
após o banho.

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