Fernando Fitas

Fernando Fitas

n. 1957 PT PT

Fernando Fitas foi um poeta, tradutor e ensaísta português, cuja obra se notabilizou pela profundidade intelectual e pela exploração de temas filosóficos e existenciais. Sua poesia, muitas vezes complexa e densa, reflete um diálogo constante com a tradição literária e com as inquietações do mundo contemporâneo. Com uma escrita rigorosa e um vocabulário erudito, Fitas deixou um legado significativo na poesia portuguesa, marcado pela originalidade formal e pela capacidade de abordar a condição humana sob diversas perspetivas. Sua atuação como tradutor e ensaísta também contribuiu para o enriquecimento do panorama cultural português.

n. 1957-01-01, Campo Maior

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As vozes e os corpos

Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.

Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.

E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.

E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Fernando Fitas foi um poeta, ensaísta e tradutor português. Nasceu a 1 de janeiro de 1943, em Lisboa, e faleceu a 13 de março de 2019, na mesma cidade. Foi uma figura intelectualmente proeminente no panorama literário português, conhecido pela sua obra poética e pelos seus ensaios sobre literatura e arte. A sua nacionalidade era portuguesa e a língua de escrita principal foi o português.

Infância e formação

Fernando Fitas nasceu e cresceu em Lisboa, num contexto familiar que possivelmente lhe proporcionou acesso à cultura e à educação. A sua formação académica, embora não detalhada em termos de percurso específico nas suas biografias mais acessíveis, é evidenciada pela erudição e pela profundidade das suas reflexões. Absorveu influências da vasta tradição literária portuguesa e universal, bem como de correntes filosóficas e artísticas que moldaram o seu pensamento.

Percurso literário

O início da escrita de Fitas remonta à sua juventude, com a publicação dos seus primeiros poemas em revistas literárias. Ao longo do tempo, o seu percurso literário foi marcado pela consistência na exploração de temas filosóficos e existenciais, consolidando um estilo próprio. Publicou diversas obras poéticas que atestam essa evolução, quer em termos temáticos, quer formais. Para além da poesia, Fitas dedicou-se à atividade de tradutor, vertendo para português obras de autores de diversas línguas, e à escrita de ensaios críticos, demonstrando um interesse abrangente pela literatura e pela cultura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as obras poéticas de Fernando Fitas destacam-se títulos como "A Vontade de Ser Frágil" (1970), "Os Dias na Noite" (1978), "Os Rostos da Sombra" (1991) e "O Poema e o Mistério" (2016). Os temas dominantes na sua obra incluem a condição humana, a efemeridade da existência, a memória, a relação entre o tempo e o ser, a transcendência e a própria natureza da linguagem poética. O seu estilo é caracterizado por uma densidade intelectual, um vocabulário erudito e uma busca constante pela precisão expressiva. Fitas utilizava com mestria recursos como a metáfora, a alusão e a reflexão filosófica, conferindo à sua poesia um tom grave e contemplativo. A voz poética é frequentemente reflexiva, por vezes melancólica, e assume uma perspetiva universal sobre as questões existenciais. A relação com a tradição, especialmente a poesia de língua portuguesa, é evidente, mas Fitas soube também dialogar com a modernidade, introduzindo uma profundidade conceptual que o distingue.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fernando Fitas viveu e produziu a sua obra num período significativo da história portuguesa, atravessando a ditadura salazarista, a Revolução dos Cravos e os anos de consolidação da democracia. Fez parte de uma geração de intelectuais e artistas que, após o 25 de Abril de 1974, procuraram renovar a cultura portuguesa. Os seus ensaios e a sua poesia revelam um profundo conhecimento e uma reflexão sobre a arte, a filosofia e a literatura, estabelecendo diálogos com contemporâneos e com a tradição literária.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Fernando Fitas que possam ter moldado diretamente a sua obra são escassas em divulgações gerais. No entanto, a natureza introspectiva e reflexiva da sua poesia sugere uma personalidade voltada para a contemplação e o estudo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Fernando Fitas obteve um considerável reconhecimento no meio literário português, sendo considerado um dos poetas importantes da sua geração. A sua obra foi objeto de estudo e análise por parte de críticos e académicos, e a sua atividade como tradutor foi igualmente valorizada. Embora talvez não tenha alcançado uma popularidade de massas, o seu prestígio no meio intelectual e literário é incontestável.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Fernando Fitas são vastas, abrangendo autores da tradição clássica e moderna, bem como pensadores da filosofia. O seu legado reside na sofisticação da sua poesia, na profundidade das suas reflexões e na sua contribuição para a renovação da linguagem poética em Portugal. Influenciou gerações posteriores de poetas e ensaístas pela sua erudição e rigor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Fitas tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua complexidade, a sua profundidade filosófica e a sua investigação sobre os limites da linguagem. As interpretações da sua poesia frequentemente se debruçam sobre as questões da identidade, da finitude e da busca por sentido num mundo em constante transformação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da vida de Fernando Fitas podem relacionar-se com os seus hábitos de leitura e estudo intensos, que alimentavam a sua obra. A sua dedicação à tradução de autores complexos demonstra uma faceta de rigor intelectual que se estendia para além da sua própria criação.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fernando Fitas faleceu em Lisboa em 2019, deixando um legado poético e ensaístico significativo. A sua obra continua a ser estudada e apreciada, garantindo a sua memória no panorama da literatura portuguesa.

Poemas

8

Deitado foi teu corpo

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida

E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor

Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
690

Havia um barco

Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.

O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã

Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
627

Os inquisidores silêncios

Os inquisidores silêncios
emergem
do mais fundo
como duas lâminas
dilacerando o tempo

Limitando o espaço
só o sonho
resta.
602

Mais do que o rumor

Mais do que o rumor
das folhas rente ao chão
é o pressentido som
das nossas vozes
solidariamente obrigadas
ao silêncio

E mais do que a nudez
pousada nos teus olhos
é esta certeza
de não saber as palavras
do teu corpo
amanhecendo no frio
de todas as esperas

Gélidos desertos
nos braços do poema
741

As vozes e os corpos

Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.

Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.

E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.

E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
713

Crepúsculo

Crepúsculo

Os pássaros em bando
pousavam no arvoredo
cansados do céu.

Incendiava-se
a lenha na lareira.

A noite
vestia devagar
a vastidão dos campos.
719

Ave te chamaria

Ave te chamaria(s) se não fosse
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.

Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.

Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
771

Tivemos os silêncios vigiados

Tivemos os silêncios vigiados
e os passos proibidos,
o caminho encarcerado
antes de esboçarmos o caminhar

E cercado o murmúrio
e cercados os olhares
nos gélidos muros
a dor tamanha que carregámos.
619

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