Everardo Norões

Everardo Norões

n. 1944 BR BR

Everardo Norões foi um poeta brasileiro, conhecido por sua obra marcada pela intensidade lírica e pela exploração profunda de temas existenciais e sociais. Sua poesia se distingue pela força expressiva, pela sonoridade e pela reflexão sobre a condição humana em um contexto de transformações. A obra de Norões é um convite à contemplação da vida, do amor, da política e da efemeridade, utilizando uma linguagem que transita entre o coloquial e o erudito. É um autor cuja escrita permanece relevante pela sua capacidade de tocar em questões universais com uma voz autêntica.

n. 1944-03-20, Crato

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a música

Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
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Biografia

Identificação e contexto básico

Everardo Norões foi um poeta brasileiro, nascido em Pernambuco. Não há registos públicos de pseudónimos ou heterónimos utilizados por ele. A sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita principal era o português.

Infância e formação

Everardo Norões teve uma infância e formação marcadas pela vivência no Nordeste brasileiro, um contexto cultural rico que, sem dúvida, influenciou a sua visão de mundo e a sua sensibilidade poética. Detalhes específicos sobre a sua educação formal ou autodidatismo não são amplamente divulgados, mas a sua obra demonstra um repertório cultural vasto.

Percurso literário

O percurso literário de Everardo Norões iniciou-se com uma produção poética que rapidamente o destacou pela sua força e originalidade. Ao longo da sua carreira, Norões explorou diferentes facetas da experiência humana, desde o lirismo mais íntimo até à crônica social e política, evoluindo estilisticamente sem perder a sua identidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Everardo Norões abrange uma vasta gama de temas, incluindo o amor, a morte, a memória, a política, a natureza e a própria poesia. O seu estilo é caracterizado pela intensidade lírica, pela musicalidade dos versos e por uma linguagem potente, que frequentemente mescla o coloquial com o erudito. Utiliza metáforas e imagens fortes, com um tom que pode variar do elegíaco ao irónico e combativo. Norões é reconhecido por introduzir uma voz autêntica e engajada na poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Everardo Norões viveu e produziu em um período significativo da história brasileira, marcado por transformações sociais e políticas. A sua obra reflete essa realidade, dialogando com os acontecimentos do seu tempo e com os debates intelectuais e culturais. Pertenceu a uma geração de poetas que buscava reinventar a poesia brasileira, conectando-a com as urgências do presente.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Everardo Norões, como relações afetivas, familiares, amizades, profissões paralelas ou crenças, não são amplamente documentadas em fontes públicas, embora se saiba do seu envolvimento com o meio cultural e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Everardo Norões é valorizada pela crítica e por leitores que apreciam a poesia de forte cunho lírico e reflexivo. Embora o reconhecimento em larga escala possa ter sido gradual, a sua contribuição para a poesia brasileira é inegável, consolidando-se como um autor de referência.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Everardo Norões foi influenciado por grandes nomes da poesia brasileira e universal. O seu legado reside na originalidade da sua voz e na profundidade com que abordou temas universais e questões da sua época, influenciando gerações posteriores de poetas pela sua coragem temática e estilística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Everardo Norões oferece um campo fértil para análise crítica, explorando a complexidade das emoções humanas, as tensões sociais e políticas, e a própria natureza da existência. A sua obra pode ser interpretada como um testemunho poético de seu tempo e um convite à reflexão sobre a vida em suas diversas manifestações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da personalidade e obra de Everardo Norões, bem como episódios curiosos da sua vida, não são amplamente documentados em fontes acessíveis ao público geral.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Detalhes sobre as circunstâncias da morte de Everardo Norões e possíveis publicações póstumas não são amplamente documentados em fontes acessíveis.

Poemas

10

Corpo

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.
619

a música

Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio…
724

Café

Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.

(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).

Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.

De onde vem o grão
dessa saudade?

Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.

Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
632

fractais

Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).

A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
649

OS ENCOURADOS

A tarde chega.
A luz se dispersa:
quem anunciará a morte,
soltará o chicote,
abrirá a fresta?

Quem domará o espaço
entre o gume e a alma,
entre a cerca e a palma,
entre o assombro e a calma?

E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Os encourados se miram
num horizonte de varas.
A copa é pequena:
na redondez dos cabos,
lâminas severas.

Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.

Adonde vosmecê,
alumia o sobrosso,
desmazelo do corpo?

A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega.
A luz se dispersa.

E uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Ponto de cruz ou estrela:
uma rede bordada.


               De Retábulo de Jerônimo Bosch (2009)
604

TRISTÃO

Em pé, ao sol e ao vento do sertão,
             ele não se decompôs.
                         Pedro Nava (Baú de Ossos)

As palavras no alforje. E o rosário,
a escorrer das penas e dos dias.
O azul da barba lembra uma paisagem
onde campeiam cabras. E ramagens
desatam-se em sombras nas janelas.
A morrinha dos bichos. O mormaço,
trazendo o desespero, em vez de março:
um luto atravancando as taramelas.
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas.
Pendentes dos estribos, estão as horas,
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes,
e o olho além do corpo do poema.
No chão do meu degredo, sempre chão,
sete frases do ofício e um bordão.
649

pampas

Para Hildebrando Pérez Grande

São sempre linhas
as paisagens,
a cortarem geometricamente
nossas rotinas.
As curvas senoidais
das serras,
as retas dormentes
das planícies.
E nós:
pequenos pontos
num papel rasgado.
699

A RUA DO PADRE INGLÊS

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.

Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.

(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).

De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.

Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...

(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).

O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)

Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.

(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)

Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.

{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}

São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...

O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.

O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...

(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).

Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
732

SONETO I

Agonizavam os rastros de novembro.
E os meus ossos, cansados das neblinas,
doíam, no concerto das esquinas
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,

penetrou-se de escuro a minha alma,
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto,
mordeu o lado oculto do meu rosto
e deixou seus sinais à minha palma.

Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia.
O eco dos espelhos conduzia
meus passos que jaziam pelas ruas.

Havia o som da água que caía.
E no horizonte, além da agonia,
um cemitério de meninas nuas.
723

TUA FALA

ua fala parecia
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.

(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.

Era assim, tua palavra:
escorreita, sem medida.
Falas como pés descalços,
presos à relva macia.
Ou um cheiro de curral
quando a manhã principia.

(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).

               De A Rua do Padre Inglês (2006)
689

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