Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

1922–2014 · viveu 92 anos BR BR

Emílio Burlamaqui foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro, conhecido por sua participação no movimento modernista e por sua escrita que transitava entre o lirismo e a experimentação formal. Sua obra abordou temas como a cidade, a efemeridade da vida e as complexidades do sentimento humano, com uma linguagem que refletia as inovações estéticas de sua época. Como jornalista e crítico, contribuiu para a divulgação e o debate da produção literária brasileira, exercendo influência no cenário cultural de seu tempo. Sua atuação foi marcada pela busca por novas formas de expressão poética.

n. 1922-03-02, Belém · m. 2014-07-19, Rio de Janeiro

5 676 Visualizações

Angico

Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.

O cigarro era forte, o pigarro também.

Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.

Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?

Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.

E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.

Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.

Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.

E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.

Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Emílio Burlamaqui foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro. Pertenceu à segunda geração do Modernismo brasileiro.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas, mas sua inserção no meio literário e jornalístico indica uma sólida educação e um forte interesse pelas artes e pela cultura.

Percurso literário

O percurso literário de Emílio Burlamaqui esteve intrinsecamente ligado ao Modernismo brasileiro. Sua obra poética, embora por vezes menos conhecida que a de outros contemporâneos, é representativa das experimentações e das temáticas da época. Atuou também como jornalista e crítico, espaço que utilizou para discutir e divulgar a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Emílio Burlamaqui é marcada pela influência das vanguardas modernistas, explorando o verso livre, a linguagem coloquial e a temática urbana. Seus poemas frequentemente abordam a cidade como cenário e personagem, a efemeridade do tempo, as angústias existenciais e as complexidades das relações humanas. O estilo de Burlamaqui pode ser caracterizado pela busca por inovação formal e por uma expressão lírica que dialoga com a realidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Emílio Burlamaqui viveu em um período de grande efervescência cultural no Brasil, o período modernista, que buscava romper com as tradições estéticas do passado e propor novas formas de expressão artística. Ele esteve em contato com outros escritores e intelectuais de sua geração, participando ativamente do debate cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre sua vida pessoal são escassas na literatura crítica disponível.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado a mesma notoriedade de alguns de seus contemporâneos modernistas, Emílio Burlamaqui é reconhecido por sua contribuição à poesia e ao jornalismo literário do período. Sua obra é estudada como parte do panorama do Modernismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Emílio Burlamaqui foi influenciado pelas correntes modernistas e pelas vanguardas europeias. Seu legado se manifesta na sua participação no movimento que revolucionou a literatura brasileira, abrindo caminhos para novas experimentações e temáticas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Emílio Burlamaqui pode ser interpretada como um reflexo das tensões e das transformações da sociedade brasileira em meados do século XX. Seus poemas oferecem um olhar sobre a vida urbana e as inquietações humanas em um contexto de modernização.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por vezes, a obra de Emílio Burlamaqui é vista como um exemplo de uma produção modernista que, embora significativa, permaneceu à sombra de nomes mais proeminentes, mas que ainda assim revela facetas importantes do movimento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre a morte de Emílio Burlamaqui e publicações póstumas não são amplamente detalhadas em fontes de fácil acesso.

Poemas

5

De Nietzsche a Dante, com Amor

Se vais à mulher, não esqueças o chicote
Para fustigares o perigo do amor.
Carrega a lança, pois és sempre um D. Quixote,
Mas leva o lenço para a inexorável dor.

O amor não é mais forte que a espuma
(espuma do mar: Venus, amor... tormento)
E muito menos que a neblina, que a bruma
Que se desfazem com o sol ou com o vento.

O amor é instável, sutil, evanescente.
Não há prazo para tempo tão fugaz,
Sua essência é ser assim inconsistente,
Não há norma, não há tino, não há paz.

Porta o chicote, leva o corpo, deixa a alma,
Guarda receio se a mulher tua mão alcança,
Conduz teu lenço, teu escudo, tua calma,
Se vais ao amor, deixa atrás toda esperança.

938

Ninguém

Saio à rua, ninguém fala comigo.
Entretanto, descuidado, não falo com ninguém.
Volto à casa, ninguém deixou recado.
Porém já é tarde, durmo, esqueço,
E não telefono para ninguém.

No cais, o lenço de ninguém se agita
Enquanto entre nós a distância se faz.
E eu, estranhamente, fico olhando o mar,
Sem atinar, sem acenar,
Sem adeus.

O trem chega, a distância se desfaz.
E, no meio de uma multidão indistinta
Que não me diz mais nada,
Distingo ninguém tentando me dizer alguma coisa.
Apesar disso, passo apressado sem escutar
Aquilo que ninguém queria me contar.

Por que será então que,
Mesmo eu não correspondendo a tanta fidelidade
E a tão exato desvelo,
A presença de ninguém persiste assim
Tão intensa e tão densa
Junto a mim?

Será que, qual ave preta
E tal como noutra história,
Ninguém se afastará de mim
Nunca mais?

841

De uma Notícia de Jornal

Disseram à menininha de quatro anos,
Sobrevivente única de um desastre de avião
Em Detroit,
Que ela iria rever seus pais
Nunca mais.

E a menininha perguntava:
O que quer dizer "nunca mais"?

Infortunadamente, meu anjo,
É nunca jamais para todo o sempre,
É o nunca mais de corvo
Que Drumond, triste, lembrou,
Que Allan, trágico, criou.

733

Um Tema

[Lá vai o grande rio
[Solene como uma procissão.

[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.

[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.

[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.

[Esse termo estará no seu encontro com o mar.

[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.

[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.

[A água se integrou no seu mar.

[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.

[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.

[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.

[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.

[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.

[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.

[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.

[A alma terá encontrado seu mar.

869

Angico

Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.

O cigarro era forte, o pigarro também.

Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.

Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?

Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.

E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.

Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.

Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.

E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.

Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?

1 068

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.