Escritas

Lista de Poemas

Trajetória

na queda

fundou um reino

criou um pai

fez um leito

de pedra

para o corpo

de cristal

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Falésias e falácias

De tempos em tempos, nos deparamos com ensaios, artigos ou entrevistas com opiniões de poetas, romancistas ou críticos falando da falésia Joyce, do abismo Mallarmé ou do enigma Valéry. Já virou lugar comum dizer que não há romance possível depois de Joyce ou que Mallarmé levou a poesia a um reino de refinamento que não pode ser alcançado. Um desses colunistas que pululam na imprensa chegou a determinar de forma ditatorial que o romance acabou em Joyce, o teatro em Racine e a pintura em Velázquez. Qualquer tentativa de levar adiante qualquer uma dessas artes resultará, para esses adoradores de ídolos, em fracasso. O romance acabou. Não existe mais pintura. E a poesia está em extinção.
O engraçado é que os mesmos que colocam esses autores no panteão de super-homens continuam escrevendo. Portanto, não fazem exercício de modéstia diante da grandeza desses autores. Na minha infância havia um caderno muito comum, usado pelas crianças pobres, que trazia na capa um moleque carregando uma enorme bandeira onde se lia Avante! A impressão é de que essas pessoas carregam essa bandeira levando sempre na vanguarda as conquistas dos artistas acima citados. Estamos no final do século e ainda insistem que sejam seguidos os evangelhos de Pound ou Mallarmé.
Uma passada rápida pela literatura do século XX mostra que muitos autores não se sentiram intimidados ou obrigados a seguir uma linha programática em suas obras. Yeats, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Seféris, Rilke, Paul Celan, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes não teriam criado suas obras fundamentais se acreditassem nesse falso impasse. E nomes como Herrmann Broch, Elias Canetti, Lawrence Durrell, Guimarães Rosa ou Julio Cortázar jamais teriam escrito seus romances se julgassem que nada mais havia para ser criado depois de Ullisses ou Finnegans Wake. Mesmo autores influenciados por Joyce, como Anthony Burgess, não se recusaram a criar, esbirrados pela grandiosidade do irlandês.
Dante Milano num curto e brilhante ensaio chamado Mallarmé e sua influência chama muito bem a atenção para o problema daqueles que querem superar o poeta. Aponta a excessiva idealização da arte como um produto divino, artificial, um bibelô estético. Presos a essa corrente que faz do poema um artefato e do poeta uma máquina de fazer poemas, muitos giram em falso em sua esterilidade. Muitos tentam imitar sua técnica, sem conseguir chegar à sua poética.
Os angustiados pela sua influência buscam sem sucesso atingir seu refinamento. Tiram da poesia tudo que há de humano, de vivacidade, de espírito e, digamos a temida palavra, de pensamento. Tontos pelo slogan de que poesia "não se faz com idéias, mas com palavras," jogam-nas aos quatro cantos da página, imaginando que esse lance de dados vá inaugurar a poesia. Pensar pode ser, sim, um ato poético. Dão prova disso a poesia de Leopardi, W. H. Auden e a do próprio Milano. Jovens poetas bem intencionados tentam seguir os mesmos slogans de make it new, ostinato rigore, miglior fabbro, sem saber que eles passam pelo conhecimento e diálogo com a tradição.
Parte desse emaranhado conceitual resulta numa poesia sem tutano, diluída e livresca. Perde-se, assim, sua ligação com a língua e a identificação com os leitores que não são especialistas. Tentando cortar gorduras, cortam a carne e os ossos do poema. Embora produzam faíscas de beleza, não conseguem ir além do flash, do insight, da charada sutil. Nesses casos, a brevidade deixa de ser concisão como bem observou Waly Salomão no poema em que fala de João Cabral de Melo Neto. De citação em citação, de colagem em colagem, de slogans e trocadilhos surge uma poesia desprovida de qualquer voz própria ou cor, que pode ser chamada conversação entre homens inteligentes e elegantes.
Nós, poetas, herdeiros de uma geração fortíssima estamos com medo do grande salto. Insistimos muitas vezes no apuro técnico, na brevidade, por receio de parecermos líricos, indulgentes, rídiculos. Muito da poesia dos poetas de 30 a 40 anos peca pelo excesso de delicadeza, pela busca exagerada de um tom poético, pela intricada rede de desleituras. Como bem observou Cioran o excesso de poesia também faz mal à poesia. Essa contenção, embora produza poemas de qualidade média, tolhe vôos maiores.
Além disso, parte dos recursos que eram considerados radicais estão completamente banalizados. A fragmentação, as colagens, as elipses tornaram-se lugar comum da publicidade e da dita estética MTV. Poetas que insistem em usar o Corel Draw ou o Page Maker fazem produções muito inferiores em termos de qualidade técnica a qualquer videoclip.
Hoje, o que choca não é a pintora performática que pinta seus quadros com o sangue de sua menstruação ou o artista que corta a língua como ato estético. Causaria mais espanto um jovem que aparecesse desenhando como Picasso ou, no caso do Brasil, tivesse o traço de um Flávio de Carvalho ou Marcelo Grassmann. Deve ser por isso que as pinturas de um Francis Bacon ou de um Lucien Freund ganham uma nova dimensão. Depois de tanta obra conceitual e interativa nada como um quadro bem pintado por quem tem uma visão densa das coisas para nos mostrar que até mesmo auto-retratos não estão fora de moda. Ressalte-se aqui que a arte abstrata atinge sim uma região do sublime. Kandinsky, Paul Klee, Yves Klein e, mais recentemente, Anish Kapoor provocam-nos um mergulho na origem sagrada, há um fio espiritual conduzindo suas obras. Espiritual, reafirmo, não exlusivamente mental ou conceitual. Deve ser por isso que Jackson Pollock só teve imitadores, nunca seguidores que atingissem o seu grau de intensidade.
Vivemos um período em que nos enriquecemos por traduções de nomes importantes. Descobrimos a poesia de outros países. Foi uma abertura de fronteiras. Somos gratos aos tradutores como os irmãos Campos, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Aíla da Silva Gomes, Paulo Vizioli, Dora Ferreira da Silva e tantos outros que nos permitiram o acesso às obras de poetas importantes. Como diz um ditado mineiro, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Bem, nos lambuzamos e nos deliciamos com tantos ares novos. Certamente, o saldo será altamente benéfico para a poesia. A língua portuguesa ganhou muito com essas traduções.
Houve, entretanto, um efeito colateral. Deixamos de lado nomes importantes da poesia brasileira. Esquecemo-nos muito rapidamente deles. E passamos a ter necessidade de dialogar com a poesia norte-americana contemporânea. Estarão esses interessados em dialogar com a poesia brasileira? O que observamos é que mesmo os poetas mais experimentais dos EUA sempre mantiveram um diálogo com sua tradição de Whitmam a Emily Dickinson. Prova disso são os estudos cada vez mais amplos sobre esses poetas. Suas obras hoje são canônicas e ninguém se sente antiquado por lê-las.
No Brasil, até há pouco tempo caçávamos obras de Murilo Mendes nos sebos. Graças ao belo trabalho de Isabel Lacerda, na Nova Aguilar, temos as obras completas dele publicadas. Ele está sendo descoberto com encantamento por um público jovem. Pecisamos, portanto, fazer circular novamente a obra de poetas importantes que foram um tanto sombreados pelos mais famosos. Peço licença para puxar a sardinha para poetas de minha predileção como Emílio Moura, Dante Milano, Mario Faustino e Cassiano Ricardo. Mesmo uma poeta celebrada como Cecília Meireles não é muito estudada em nossas universidades. Precisamos dar valor aos nossos criadores. Sem medo de parecermos provincianos. Caipira é quem está deslumbrado com a globalização e faz questão de ecoar com alarde a última novidade de Manhattan.
Nem todo mundo, entretanto, foi iludido por essas falácias e ficou com medo de cair nas falésias. Entre os poetas do meu conhecimento cito Floriano Martins, Paulo Henriques Britto, Alexei Bueno, Ruy Espinheira Filho, Fábio Weintraub, Paulo Octa
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Recomendações

Ao cavaleiro desencarnado,
com sua égua de gás hélio,
recomendo ouro, prata e chumbo.
No meio do seu caminho,
mero pedregulho transmuta-se
em rocha, penedo, penhasco.
Mínima ponta de agulha fura
sua armadura hiperbovarista.
Nem figos envenenados
sustentam-lhe a fome.
Tudo o que toca some. Evapora.
Ponha os pés no chão,
para que o minério de ferro
neles grude e forme um casco.
Ninguém vai ouvir falar do seu nome.
Escuta o resumo de sua vida:
um espasmo, um sopro que não soa
além da grade de sua casa.
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Diante de Uma Fotografia

O Tietê não é o Neva.
E nada no Curtume
lembra a sua Peter.
Galpões de fábricas
estendem-se sem rigor,
sem história ou forma.
Sucessão de chaminés,
caos de telhas de zinco.
Este é o lugar da cadela esquálida,
dos trens que gemem no subúrbio,
dos peões vestidos de azul e graxa,
dormindo ao meio-dia na calçada.
Na fila do almoço, o rebanho todo
estende suas bandejas de plástico.
Há fuligem nas janelas, nos olhos,
na sola dos sapatos. Nos cérebros.
Anna, as sereias do Báltico
não cantam aqui suas cantigas.
No mar das impossibilidades,
deixaram-me uma fotografia.
Vejo você - estrangeiríssima.
A curta franja dos cabelos.
O nariz forte. O desenho da boca.
A mão pousada no pescoço
que Modigliani um dia desenhou.
E no olhar felino, cinza-claro,
pressinto paixão e dor contida.
Anna Ahkmátova,
poeta de nome inventado,
lança sobre mim o claro raio
dos teus olhos líquidos,
para que minha alma não vire pedra.
Não quero morrer de sede,
sem ouvir a voz da língua.
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Solilóquio de Nina Simone

Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
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Fachada

Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
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Invenção do branco

“...all this had to be imagined
as an inevitable knowledge.”
Wallace Stevens
O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento.
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Fiapos

a José Paulo Paes
Sei que sei
não sei bem o quê.
Saber não revelado,
ainda envolto em
membrana de placenta.
Lembro-me de que preciso
lembrar de uma coisa
que não deveria ser esquecida.
Lembrar de quê?
De um território que se espraia
em sua mudez de azul?
De uma palavra soprada
em tempos de antes de eu nascer,
que na tarefa de viver
caiu no esquecimento?
Num lapso, às vezes,
parece que me lembro
e a lembrança passa
sem que fique registro.
A luz de Apolo
roça minha cabeça
sem que arrebatá-la
eu possa.
Por ela, esmolo.
Rendo sacrifícios.
Ignora-me.
Vai-se embora
com suas chispas.
Ficam fiapos,
cacos, esboços.
Logo, desmemoriado,
quedo-me cego
e abandonado.
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Sim, One

O que sinto , a língua não fala.

Há uma dor que não tem nome.

Musgo de abismo que o sopro

da voz alcança e macera.

Dont let me be misunderstood.

I dont want to be alone.

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Anil

Pedra tocada por Yves Klein,

em que borda do poço

se perdeu?

Em que veio de mina

ficou incrustada?

Por que a pálpebra se fechou

quando deveria estar aberta?

Por que não foi feita

a pergunta certa?

Onde o mantra

que faz surgir Tara,

caminhando hierática

sobre a muralha?

Em que noite adormeci verde

e acordei Saara?

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