Cristóvão Falcão

Cristóvão Falcão

1512–1557 · viveu 45 anos PT PT

Cristóvão Falcão foi um poeta e humanista português, cuja obra é fundamental para o estudo da poesia renascentista em Portugal. A sua escrita, marcada pela influência clássica e pela busca da perfeição formal, aborda temas como o amor, a natureza e a fugacidade da vida. A sua maior obra, "O Labirinto", é um poema de grande complexidade e erudição, que reflete a sua profunda formação intelectual e o seu papel no contexto cultural do seu tempo.

n. 1512-01-01, Portalegre · m. 1557-01-01

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Crisfal

(Fragmento)

Os tempos mudam ventura,
bem o sei pelo passar,
mas, por minha grã tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a sua tristeza,
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

Coitado de mim, coitado,
pois o meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado;
quem diz que chorar descansa
há de ter pouco chorado,
que quando as lágrimas são
por igual da causa delas
virá descanso por elas,
mas como descansarão
pois que são mais as querelas.

Contudo olhos de quem
não vive fazendo al
chorai mais que os de ninguém
que o que é para maior mal
tenho já pra maior bem.
Lágrimas manso e manso
prossigam em seu ofício,
que não façam benefício,
não servindo de descanso
serviram de sacrifício.

Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tão aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade
que esta vos não faltará,
mas isto como será?
pedi-la-ei à saudade,
e a saudade me dará.

Todos os contentamentos
da minha vida passaram,
e por fim não me ficaram
senão descontentamentos
que de mim se contentaram.
Destes pelo meu pecado,
inda que nunca pequei,
a quem amo e amarei
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço
dê-se-me a culpa assim
e seja já com a fim
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Cristóvão Falcão foi um poeta e humanista português do Renascimento. A sua obra mais conhecida é o poema "O Labirinto".

Infância e formação

Cristóvão Falcão nasceu em Viana do Castelo, por volta de 1517. A sua origem familiar é obscura, mas sabe-se que teve acesso a uma educação cuidada, provavelmente em Coimbra, onde terá estudado Direito. Absorveu os ideais do Humanismo renascentista, influenciado pelas leituras de autores clássicos e contemporâneos.

Percurso literário

Cristóvão Falcão iniciou a sua atividade literária no contexto do Renascimento português. A sua obra principal, "O Labirinto", escrita em 1540, mas publicada postumamente em 1580, é um poema alegórico de grande erudição e complexidade. A sua atividade literária esteve ligada aos círculos humanistas da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Cristóvão Falcão, centrada em "O Labirinto", explora temas como o amor, a vida terrena, a fortuna e a condição humana. O poema é uma alegoria da vida, apresentando os desafios e as tentações que o ser humano enfrenta. O estilo é erudito, com abundantes referências mitológicas e clássicas, demonstrando um domínio da métrica e da forma poética renascentista, nomeadamente o oitavo verso.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Cristóvão Falcão viveu no auge do Renascimento português, um período de grande florescimento cultural e de expansão marítima. Era contemporâneo de figuras como Luís de Camões. O seu humanismo reflete a busca pelo conhecimento e a valorização da cultura clássica que caracterizavam a época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Cristóvão Falcão. Foi um homem de estudo e erudição, dedicado às letras. Presume-se que tenha tido uma vida discreta, ligada ao mundo académico e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Cristóvão Falcão, especialmente "O Labirinto", foi reconhecida pela sua qualidade literária e erudição. No entanto, a sua publicação tardia limitou a sua difusão imediata. A sua importância foi gradualmente reconhecida ao longo do tempo, sendo hoje considerado um dos expoentes da poesia renascentista portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Cristóvão Falcão foi influenciado pela poesia clássica (Virgílio, Ovídio) e pelos humanistas italianos. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia alegórica e erudita do Renascimento em Portugal, demonstrando um elevado domínio técnico e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica "O Labirinto" tem sido interpretado como uma alegoria da vida, com os seus caminhos e desvios, e uma reflexão sobre as escolhas morais e existenciais do ser humano. A sua erudição e complexidade estrutural são frequentemente destacadas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A publicação póstuma de "O Labirinto" é um dos aspetos mais notáveis da sua obra, que só viu a luz do dia décadas após a sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cristóvão Falcão faleceu em 1557, em Lisboa. A sua memória perdura através da sua obra "O Labirinto", um marco da poesia renascentista portuguesa.

Poemas

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Crisfal

(Fragmento)

Os tempos mudam ventura,
bem o sei pelo passar,
mas, por minha grã tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a sua tristeza,
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

Coitado de mim, coitado,
pois o meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado;
quem diz que chorar descansa
há de ter pouco chorado,
que quando as lágrimas são
por igual da causa delas
virá descanso por elas,
mas como descansarão
pois que são mais as querelas.

Contudo olhos de quem
não vive fazendo al
chorai mais que os de ninguém
que o que é para maior mal
tenho já pra maior bem.
Lágrimas manso e manso
prossigam em seu ofício,
que não façam benefício,
não servindo de descanso
serviram de sacrifício.

Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tão aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade
que esta vos não faltará,
mas isto como será?
pedi-la-ei à saudade,
e a saudade me dará.

Todos os contentamentos
da minha vida passaram,
e por fim não me ficaram
senão descontentamentos
que de mim se contentaram.
Destes pelo meu pecado,
inda que nunca pequei,
a quem amo e amarei
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço
dê-se-me a culpa assim
e seja já com a fim
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.

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