Escritas

Lista de Poemas

Cantiga

Eu sou o olhar que contempla
o amor que rebenta em ti;
sou o pássaro cativo
que canta enternecido
na paisagem tão terna
que há em ti e por mim.
Depois de nossos caminhos
sou o descanso maduro,
a sombra, o fruto morno,
o vento nos teus cabelos.
Sou o canto que desperta,
a voz que canta e chora;
sou percussão dos sentidos
e cordas do meu amor;
nunca vou morrer depois,
embora sigamos juntos
pela vida para a morte.
Falo a língua esquecida,
verbo que o mundo esqueceu,
mas canto minha cantiga
do amor que nunca morreu...

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Êxtase

Esperei por ti neste último poema:
tu chegas em fuga, ai, sem ruído e voz
(não temos voz) e através da água dos nossos olhos
olhamos um os olhos do outro (quanto vemos, amor!)
e, oh Cristo, basta! Agora desço por teu rosto,
pois sigo na lágrima tua e quando encostas
o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso
do meu cavalo louco nos caminhos do fim.
Por aqui ninguém vai, amor: eu vou sem voz
e é meu olhar que ecoa, não minha voz.
(E eu quero voz?) Ela ficou em ti, no teu silêncio
e na tua lágrima vou morrer na angústia dos trovões
calados e com todas as neuroses da alma dos relâmpagos.
Teu pranto é mudo quando morro e nele viajo
com minha morte. Desci por teu rosto e terminei
bem entre teus seios: se na tua lágrima segui
é porque meu último desejo foi estar aqui.
Minhas mãos não acenam (morrem na posse)
ocupadas pela última colheita.

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Plenilúnio

Plenilúnio, oh plena lua
de meu avô e de minha avó.
Leio versos dele nas velhas coletâneas
enquanto os recortes amarelecidos
fazem queixas e promessas,
queixas, promessas e esperanças.
Tudo de ti me fala, eis que confessa
nas canções plenas de luas cheias,
cheias de todas as luas.
Ao pé do soneto publicado
o anúncio do livro que se perdeu,
cujas páginas quase não restaram.
E agora, perto de um século depois,
tomo o plenilúnio ao meu cuidado
com um livro sem graça,
mas cheio de emoção como seria o seu.
Meu avô Eduardo declamava com voz cheia
os versos que fez como padeiro
para Mimosa, minha avó.
Tudo restou acontecido,
inclusive as mortes no caminho.
a dele, a dela e a partida
dos filhos todos que tiveram.
O velho álbum guarda recortes amarelos
e é a própria lua cheia que me ilumina
com seculares emoções,
jovens emoções que se renovam a cada lua.
Os dedos de minha Mãe pregaram esses papéis
que jazem pregados em mim.
Oh plenilúnio, oh lua plena, plena lua
lua de cem anos, lua cheia
de uma saudade sem fim.
Plenilúnio da saudade,
oh plenilúnio de mim.

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