Escritas

Lista de Poemas

Espere, Baby

espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes

espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre o mistério da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma

espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é

espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim

espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos.


Publicado em América (1975).

In: CHACAL. Drops de Abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.44. (Cantadas Literárias, 16
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Fogo-Fátuo

ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel

se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia

ela pensa que eu sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se estouro sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia.


Publicado no livro Nariz aniz (1979).

In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.71. (Cantadas literárias, 16
👁️ 5 752

Ossos do Ofício

sempre deixei as barbas de molho
porque barbeiro nenhum me ensinou
como manejar o fio da navalha

sempre tive a pulga atrás da orelha
porque nenhum otorrino me disse
como se fala aos ouvidos das pessoas

sou um cara grilado
um péssimo marido
nove anos de poesia
me renderam apenas
um circo de pulgas
e as barbas mais límpidas da turquia.


Publicado no livro Boca roxa (1979).

In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.89. (Cantadas literárias, 16
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Prezado Cidadão

Colabore com a Lei
Colabore com a Light
mantenha luz própria.

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Curral de Deus

cães ladram ao longe
galos abrem o berreiro
cigarras se despedem da vida
sapos coacham a verdade

e assim vai mais um dia
nesse curral de Deus.


In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.40. (Cantadas literárias, 48
👁️ 3 806

Vamp

a rua escura deserta
acelera o desejo
eu piso fundo no mundo
com o farol aceso

uma sirene: polícia
no retrovisor
não sei se é paranóia
ou se sou infrator

em cada curva fechada
espero pelo pior
estranho cheiro de sangue
ninguém ao redor

no carro, o rádio anuncia
mais um assassinato
vejo seu corpo na esquina
paro o carro e salto

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

um dia seu nome é Ana
no outro dia Janette
o tempo todo na cama
afiando a gilete

só sai na rua se for
em busca de uma brisa
e quando o dia começa
você corre da polícia

a vida inteira agitou
e hoje vive no vício
um vai e vem, entra e sai
na porta do edifício

seu veneno é cruel
seu olhar, assassina
me queimo no seu calor
seu coração de heroína

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

você só quer aplicar
você não quer nem saber
você só sabe iludir
você espalha o terror


In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.85-86. (Cantadas literárias, 48
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Garrincha

a maior glória do futebol
nasceu em Pau Grande só
pra sacanear o vernáculo.
e pra zombar da anatomia,
perna torta.


Publicado no livro Olhos vermelhos (1979).

In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.65. (Cantadas literárias, 16
👁️ 3 046

Verão

Revoada
cabeleiras cambalache
andarilha
na trilha do sol.

👁️ 4 370

Ponto de bala

os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações

👁️ 3 610

Ministério do Interior

pensamento é o fragmento fugaz
do caos estruturado
a palavra é o estágio
imediatamente after da sensação
que faz parte do estágio necessário
do aperfeiçoamento humano
de sentir a melhor maneira
de relacionamento franco

a palavra é um domingo de sol
no estádio municipal do pacaembu
se ela pinta tudo mais se cria
não mais que num instante
existindo no mesmo movimento
que a crassa ignorância
em que se fica só naquela
ânsia de comer melância

de comer melância na santa ignorância
de comer melância com muita exuberância
de comer melância com maria constância
de comer melância
de comer.


In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.97. (Cantadas literáris, 16). Poema integrante da série Drops de Abril, 1980/1983
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Comentários (5)

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Chacal
Chacal
2025-03-12

Reclame

euskadia
euskadia
2020-08-06

....reticências....falo agora porque o li conhecendo há pouco

Israel
Israel
2019-02-05

Soffi Tukker pegou dois poemas do chacal e deu melodia, agora essas músicas não saem da minha cabeça!

Daniel
Daniel
2018-10-16

Esse poema gerou uma das minhas músicas favoritas. Obrigado.

Creudânia
Creudânia
2018-05-22

Seu merda, me fez perder 2 PONTOS DA MINHA PROVA! Cuzão vei de merda