Lista de Poemas
Um pouco mais
pensei em ti.
Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.
Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.
Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.
Intensidades 1
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
45
Sombra penso na suprema imperfeição
Das coisas — as presentes e as ausentes —
Que flutuam: Água que fere ao de leve
O coração da terra; destroços
De cabanas; breves pegadas de deuxes
Balbuciantes. Tomo no pulso a frágil
Perfeição do mar, suas barcas. Aproximam-se
Do seu pó
Tal como eu agora sobrevôo
Ilhas atlânticas. A luz e o vento
Circulam felizes por entre as ruínas
De outras nuvens, poeira, corações humanos.
46
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.
Com Pessoa no Martinho da Arcada
à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada e olhei para dentro do novelo
emaranhado da sua vida. Não há nada
para desenrolar, concluímos. Corriam
os anos setenta oitenta
e os meus dias eram uma concha recheada de
metáforas cotações enigmas letras
de câmbio câmbio de afectos graffitti estatísticas
enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava
ao sabor das marés e das brisas agitadas
pelo patrão Vasques e por outras
abelhas mestras: "Governa quem é alegre(...)
para ser triste é preciso sentir".
Também eu tomei café
de costas viradas para o Tejo e encontrei
o meu sossego no desassossego de Soares
como se fôssemos o mesmo guarda-livros
cansado que descia a Rua Augusta e depois se dividia
em dois, ele a caminho da Rua da Madalena,
eu da Rua do Ouro,
onde escrevíamos apressadas sílabas no verso
dos papéis comerciais que nos pagavam
o pão. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,
ele não. O que mais me fascina
nesta fotografia
é a página que o poeta lê como se fosse
a mãe louca que embala um filho
morto. Uma tábua
"todos os papéis estão brancos"
"todas as mensagens se adivinham"
onde eu posso entrar e entrava nesses dias
quando me cansava de caminhar nas ruas baixas
que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me
na sua cadeira e misturava
como se fossem obscuras folhas de café
as palavras dele e as minhas:
Sofro de não sofrer e sobre a morte
escrevo em seu trabalho de não saber
sofrer lavrando-a enquanto
a vida visito. Vivo ou finjo que vivo?
O discurso do corpo
canta, uma vaga aragem que sai fresca
do calor do dia e me faz
esquecer tudo e com as aves
resvalo e com os rios...
Incontáveis as vezes em que o meu cansaço
da bolsa e da vida,
dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam
no azul nevoeiro
se aconchegava na página desconhecida
como se fosse um velho buraco de
família uma espécie de sono
metafórico uma imersão
em águas antigas que exerciam em mim
um vago domínio. E então eu lia
o que ele talvez ali estivesse
lendo: "Nem uma saudade já me resta
dos búzios à beira dos mares" e também eu me sentia
nesses momentos
o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas
sentados na bruma: havia um que buscava
o mar nos búzios, outro que partia para as praias onde
havia
búzios e ouvia o mar "só e calmo",
como quem habita um aroma paciente.
Também eu escrevi versos como se fossem lançamentos
de escrita, "como cuidado
e indiferença": havia que fundir-me,
entrar para dentro da areia
indizível; havia que pesar o ouro das palavras
sabendo que pesava
cinza. "O universo
não é meu", lia Pessoa na página em que não sei
o que lia, o universo "sou eu" — fonte
sonolenta
que se bebe a si própria
e mais nada. Também a mim
me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias
em que fui abandonado à tona de água
como se a água tivesse um dentro e um fora
e os cabelos que me foram caindo não dissessem
que tudo são cabelos correndo como rios
um pouco loucos
de um lado para o outro — "uma vaga doença",
"um prenúncio de morte"
que não tem outro mistério além do mistério
de partirem barcos. Também eu
me sentei à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada enquanto lá fora chovia
"como se houvesse chovido(... )
desde a primeira página do mundo"
e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada
que é tudo basta olhar
para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,
mudo. O enigma que vê outro enigma
no palco ainda verde
e já em ruína.
Comentários (0)
NoComments
Casimiro de Brito - "O Acordo Ortográfico é um problema nacional"
A Alegria Dos Pés Na Terra Molhada | Poema de Casimiro De Brito com narração de Mundo Dos Poemas
Exposição Casimiro de Brito - teaser
Amo agora
Do Poema | Poema de Casimiro de Brito com narração de Mundo Dos Poemas
Lançamento dos livros de poesia de António Cabrita e Casimiro de Brito
Festival Voix Vives 2015 : Casimiro De Brito
Frases de Casimiro de Brito
"COMO SÃO BELOS OS TEUS SEIOS!", Casimiro de Brito - Soares Teixeira
Se eu pudesse deixar de correr (Casimiro de Brito) - FUSO
Casimiro de Brito en el VIII Festival Internacional de Poesía Moncayo · 28/8/2009
"SOLIDÃO" de casimiro de brito
Poema de Casimiro de Brito
[TPF] カジミーロ・ド・ブリトー/ Casimiro de Brito
Casimiro de Brito - Animal Corupt
JOSÉ MARIA ALVES - CASIMIRO DE BRITO - CIDADE BRANCA
Inauguração oficial ENTRE MIL ÁGUAS: VIDA LITERÁRIA DE CASIMIRO DE BRITO
Casimiro de Brito · Presentación de En la Vía del Maestro · Madrid 01/09/2009
Casimiro de Brito - Só a poesia nos Salvará
Goncalves Crespo, o Poeta, por Casimiro de Brito
Casimiro de Brito no diálogo final da apresentação do seu "Eros Mínimo".
"NOITE LUMINOSA" de casimiro de brito
[049 / 365] Quem Falou em Crime? (Casimiro de Brito)
#onossopoemário "A arte da escrita" de Casimiro de Brito et Rosa Alice Branco
ENTRE MIL ÁGUAS: VIDA LITERÁRIA DE CASIMIRO DE BRITO
O NASCIMENTO. Casimiro de Brito
10 de Casimiro de Brito
Abertura da Exposição Itinerante ENTRE MIL ÁGUAS: VIDA LITERÁRIA CASIMIRO DE BRITO
CASIMIRO REAGE: BALDASSO NA TRANSMISSÃO DE GRÊMIO 3X1 INTER - BRASILEIRÃO 2023 | Cortes do Casimito
Brenda Ascoz y Casimiro de Brito · VIII Festival Internacional de Poesía Moncayo
376 - Quantas vezes - Casimiro de Brito
NA IDEIA - Felipe Smith
Casimiro de Brito NEGAÇAO DA MORTE
2 Dedos de Conversa - Dra. Ana Fazenda - Casimiro de Brito
Casimiro de Brito, "Eros Mínimo", Intervenção de Fernando Martinho
CASIMIRO COMENTA: "TEM 4 ANOS QUE MINHA EX NAMORA SÓ PRA ME ESQUECER" | Cortes do Casimito
CASIMIRO REAGE: CASA MODERNA COM INCRÍVEL PROJETO ATÍPICO DE 534 M² - ft ChiCoin |Cortes do Casimito
Casimiro desmascara fake new de Flávio Bolsonaro e reafirma voto em Lula
O gol da Argentina não valeu? #copadomundo #shorts
Eduardo Brito Lamento Esclavo
Amar a vida inteira
A paz
CASIMIRO REAGE: FACTUAL RJ - TROCAÇÃO FRANCA NO MORRO DOS MACACOS | Cortes do Casimito
Casimiro de Brito " Libro delle cadute ( 1 ) " Interprete: Sergio Carlacchiani
O Nome de CASEMIRO Sempre Foi Escrito ERRADO
CASIMIRO REAGE: INTERNACIONAL 2 X 1 FLAMENGO PELO BRASILEIRÃO 2023 | Cortes do Casimito
CASIMIRO REAGE: BLAZE - A FACE DO DONO - DANIEL PENIN | Cortes do Casimito
Amo ora - Casimiro De Brito e Marina Cedro
CASIMIRO REAGE A CORINTHIANS 3X0 LIVERPOOL PELA LIBERTADORES 2023
INTERNACIONAL 3 x 1 INDEPENDIENTE MEDELLÍN - MELHORES MOMENTOS | CONMEBOL LIBERTADORES 2023