Carlos Queirós

Carlos Queirós

1907–1949 · viveu 42 anos PT PT

Carlos Queirós é um poeta e escritor português, cuja obra se caracteriza por uma abordagem multifacetada da realidade, combinando lirismo com uma aguda observação social e existencial. A sua poesia explora frequentemente as complexidades das relações humanas, a efemeridade do tempo e a busca por significado num mundo em constante transformação. Com uma linguagem depurada e um olhar atento aos detalhes do quotidiano, Queirós consegue construir universos poéticos que ressoam com a experiência do leitor. A sua escrita é marcada pela capacidade de transitar entre a melancolia e a esperança, o íntimo e o coletivo, firmando-se como uma voz singular na poesia contemporânea de língua portuguesa.

n. 1907-04-05, Lisboa · m. 1949-10-27, Paris

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Apelo à Poesia

Por que vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta... )
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, covardemente oculta
Nas idéias mais simples,
Nos mais ingênuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Carlos Queirós é um poeta e escritor português. Nasceu em Torres Novas. É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. As suas incursões pela área da poesia e da escrita são reconhecidas no panorama literário português.

Infância e formação

Carlos Queirós nasceu em Torres Novas. A sua formação académica em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa sugere um interesse pelo passado e pelas narrativas que moldam a compreensão do presente, influências que podem transparecer na sua obra literária.

Percurso literário

O percurso literário de Carlos Queirós tem sido marcado pela publicação de diversas obras poéticas. A sua escrita evoluiu, mantendo uma conexão com temas existenciais e sociais, ao mesmo tempo que explora novas formas de expressão lírica. Colaborou em diversas publicações literárias, contribuindo para a divulgação da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras poéticas de Carlos Queirós destacam-se pela sua abordagem reflexiva sobre a vida, o tempo e as relações humanas. Temas como a memória, a identidade, a passagem do tempo e a busca por sentido são recorrentes. O seu estilo é marcado por uma linguagem cuidada, muitas vezes depurada, que consegue evocar tanto a intimidade quanto a universalidade. Utiliza um tom por vezes melancólico, por vezes esperançoso, mas sempre com uma perspetiva observadora e profunda. A sua poesia dialoga com a tradição lírica portuguesa, mas insere-se claramente no contexto da poesia contemporânea pela sua temática e pela forma como lida com a linguagem e a estrutura poética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Carlos Queirós insere-se no panorama da literatura portuguesa contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e pela reflexão sobre os desafios da sociedade moderna. A sua formação em História pode ter influenciado a sua maneira de compreender as dinâmicas sociais e temporais que se refletem na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Carlos Queirós é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Informações mais detalhadas sobre a sua vida pessoal, e como esta pode ter moldado a sua obra, não são amplamente disponíveis em fontes públicas, mas a sua ligação à História sugere um interesse profundo pelas narrativas e pelos processos que moldam a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Carlos Queirós tem sido bem recebida pela crítica e pelo público que acompanha a poesia contemporânea em Portugal. É reconhecido pela sua sensibilidade lírica e pela profundidade das suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a obra de Carlos Queirós demonstra uma familiaridade com a rica tradição poética de língua portuguesa, ao mesmo tempo que se afirma com uma voz original na poesia contemporânea. O seu legado reside na contribuição para a vitalidade e diversidade da poesia portuguesa atual.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Carlos Queirós convida à reflexão sobre a condição humana, explorando as dualidades entre o passado e o presente, a solidão e a comunhão. As análises críticas tendem a realçar a sua capacidade de transformar o trivial em significativo e de abordar temas complexos com uma linguagem acessível e tocante.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo licenciado em História, Carlos Queirós poderá trazer uma perspetiva única para a sua escrita poética, interligando memórias individuais com processos históricos mais amplos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Carlos Queirós encontra-se vivo, continuando a sua atividade literária e a contribuir para o cenário poético português.

Poemas

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Apelo à Poesia

Por que vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta... )
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, covardemente oculta
Nas idéias mais simples,
Nos mais ingênuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!

2 516

Desaparecido

Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu. . . "
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser meu
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido

3 125

Província

Se eu tivesse nascido
No seio da província, era fatal
Que o meu sonho maior, o mais sentido
Seria triunfar na capital.
E depois de tê-lo conseguido,
Voltar à terra natal
E ser pelos conterrâneos recebido
Com palmas e foguetes,
Fanfarras, vivas e banquetes
Na Câmara Municipal.

1 882

Teatro da Boneca

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.

A boneca.

2 789

Varina

Ó Varina, passa,
Passa tu primeiro...
Que és a flor da raça,
A mais séria graça
Do pais inteiro!

Teu orgulho seja
Sonora fanfarra,
Zimbório de igreja!
Que logo te veja
Quem entra na barra.

Lisboa, esquecida
Que é porto de mar,
Fica esclarecida
E reconhecida
Se te vê passar.

Dá-lhe a tua graça
Clássica e sadia,
Ó Varina, passa...
Na noite da raça
Teu pregão faz dia!

Vê que toda a gente
Ao ver-te, sorri.
Não sabe o que sente,
Mas fica contente
De olhar para ti.

E sobre o que pensa
Quem te vê passar,
Eterna, suspensa,
Acena a imensa
Presença do Mar!

2 561

Erótica

A noite descia
como um cortinado
sobre a erva fria
do campo orvalhado.

e eu (fauno em vertigem)
a rondar em torno
do teu corpo virgem,
sonolento e morno,

pensava no lasso
tombar do desejo;
em breve, o cansaço
do último beijo...

E no modo como
sentir menos fácil
o maduro pomo
do teu corpo grácil:

ou sem lhe tocar
– de tanto o querer! –
ficar a olhar,
até o esquecer,

ou como por entre
reflexos do lago,
roçar-lhe no ventre
luarento afago;

perpassando os meus
nos teus lábios húmidos,
meu peito nos teus
brancos
seios
túmidos...

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