Bertran de Born

Bertran de Born

1140–1215 · viveu 75 anos FR FR

Bertran de Born foi um trovador occitano do século XII, conhecido pela sua poesia e pela sua atividade política. A sua obra reflete a complexidade das relações feudais e a vivacidade da cultura cortês na Provença.

n. 1140, Périgord · m. 1215, Sainte-Trie

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30

1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.
2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p"ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d"arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.
3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais -
somente entre golpes mortais.
4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co"odono morto, os animais.
Ena batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.
5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando "Atrás! Atrás!"
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.
6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.
7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.
8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem -
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.
9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.
10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz
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Biografia

Identificação e contexto básico

Bertran de Born foi um proeminente trovador occitano do século XII. Não se conhece o uso de pseudónimos ou heterónimos. A sua vida e obra estão intrinsecamente ligadas ao contexto da Alta Idade Média no Sul da França.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação, mas presume-se que tenha tido acesso a uma educação rudimentar, comum na nobreza da época, e que tenha absorvido a rica tradição lírica e cortês da Provença.

Percurso literário

Bertran de Born iniciou a sua carreira literária como trovador, compondo sirventeses e canções de amor. A sua obra é marcada por uma grande vivacidade e intervenção nos assuntos políticos da época, o que o distingue de outros poetas líricos. Colaborou com outros trovadores e a sua influência é sentida na poesia trovadoresca posterior.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bertran de Born inclui principalmente sirventeses, um género que permitia abordar temas políticos e sociais com um tom mais interventivo, e canções de amor. É particularmente conhecido pelas suas canções de guerra e pelos seus ataques pessoais a outros nobres. O seu estilo é caracterizado pela agudeza de espírito, pela ironia e por uma linguagem vigorosa. A sua habilidade em tecer versos complexos e a sua perspicácia política são traços distintivos. É associado à poesia trovadoresca e à cultura cortês.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bertran de Born viveu num período de intensa atividade política e social no Sul da França, marcado por conflitos entre senhores feudais e a influência da Igreja. A cultura cortês, com os seus ideais de amor, honra e cavalaria, era predominante. Ele próprio esteve envolvido em disputas familiares e em alianças políticas, o que se reflete nas suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Bertran de Born teve uma vida marcada por intrigas e conflitos, tanto familiares como políticos. As suas relações com outros nobres, incluindo relações de vassalagem e de rivalidade, foram centrais na sua existência e influenciaram diretamente a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bertran de Born foi amplamente reconhecido na sua época como um dos mais importantes trovadores. A sua obra foi apreciada pela sua originalidade, pelo seu engenho e pela sua capacidade de intervenção nos assuntos da corte. A sua figura inspirou a imaginação posterior, sendo imortalizado na literatura, nomeadamente na obra de Dante Alighieri.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bertran de Born foi influenciado pela tradição lírica occitana e, por sua vez, influenciou gerações de poetas trovadorescos. O seu legado reside na sua mestria do sirventês e na sua capacidade de fundir a poesia com a vida política e social. A sua menção na "Divina Comédia" de Dante solidificou a sua importância no cânone literário.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bertran de Born tem sido analisada sob a perspetiva da poesia política e da expressão da mentalidade cortês. A sua ironia e o seu realismo nas descrições dos conflitos são pontos de interesse para a crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bertran de Born é frequentemente lembrado pela sua participação ativa em guerras e pela sua lealdade a certos senhores feudais, características que moldaram a sua persona poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas da sua morte são incertas. No entanto, a sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser estudada e apreciada como um testemunho valioso da cultura e da literatura occitana medieval.

Poemas

2

6

1
Perdão, senhora, por não merecer
mentiras de um bajulador qualquer.
Mercê te peço, p"ra ninguém causar
rixa entre o teu sincero, vero ser,
cortês, humilde e franco (um só prazer),
e o meu, senhora, só de caluniar.

2
Pois que o meu gavião quero perder,
ou que um falcão-borni o vá morder
para depois de morto o depenar,
se um dia eu já deixei de te querer
mais do que quis qualquer outra mulher
que me dê seu amor ao se deitar.


3
Outro perdão te peço, que é mister,
e não posso implorar por mais sofrer:
se contigo falhei, mesmo ao pensar,
quando um quarto ou jardim a nós couber,
que o meu poder me falte, sem sequer
que a companheira possa me ajudar.

4
Se à mesa eu for jogar ou me entreter,
não me emprestem vintém, nem um talher,
nem possa em mesa presa eu penetrar9;
mas que no dado eu venha a me abater,
se alguma outra dama me aprouver
como tu, que me fazes desejar.

5
Que o meu castelo se divida até
ter quatro donos com seu belveder,
sem que um sequer consiga ao outro amar,
num cerco de besteiros quanto houver,
doutores, mercenários, o que vier;
se eu tive coração para outra amar.

6
Co"escudo no pescoço hei de viver
na tempestade, co"elmo onde estiver,
e cinto firme, sem poder soltar,
no trote do corcel mais pangaré;
nem queira o albergueiro me acolher,
se ousei ter coração de outra flertar.

7
Que a minha amada de outro queira ser,
e que a mim reste um longo carecer;
que ventos eu não veja sobre o mar,
e na corte me cerquem pra bater;
seja eu na rixa o primeiro a correr,
se não mentiu quem veio te falar.

8
Senhora, e se um açor eu bem tiver,
belo e mudado, treinado em prender,
que a toda ave pode conquistar
(o cisne, o grou e a garça) em seu mester,
quero que cace frangos, para quê?
Se, gordo e velho, não puder voar?

9
Falso bajulador de um malmequer,
se quer entre os amantes se envolver:
mais nos bajula, se nos deixa estar.

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1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.
2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p"ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d"arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.
3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais -
somente entre golpes mortais.
4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co"odono morto, os animais.
Ena batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.
5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando "Atrás! Atrás!"
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.
6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.
7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.
8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem -
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.
9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.
10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz
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