Bento Prado Júnior

Bento Prado Júnior

1937–2007 · viveu 69 anos BR BR

Bento Prado Júnior foi um filósofo, crítico literário e professor universitário brasileiro, notório por seus estudos sobre a fenomenologia, o existencialismo e a literatura. Sua obra se destaca pela profundidade analítica e pela capacidade de conectar a filosofia com a experiência literária e cultural. Foi uma figura importante na formação intelectual de diversas gerações de estudantes e pesquisadores.

n. 1937-08-21, Jaú · m. 2007-01-12, São Carlos

16 346 Visualizações

A Lua-Cheia

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!

A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Bento Prado Júnior foi um proeminente filósofo, crítico literário e professor universitário brasileiro. Nascido em São Paulo, dedicou grande parte de sua vida acadêmica e intelectual à exploração de temas filosóficos, com especial atenção à fenomenologia, ao existencialismo e à filosofia da linguagem. Sua atuação se deu no contexto da academia brasileira, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do pensamento crítico e da pesquisa em filosofia e literatura.

Infância e formação

Bento Prado Júnior realizou seus estudos superiores na Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em Filosofia. Posteriormente, aprofundou seus estudos em filosofia e teoria literária, consolidando uma base sólida para sua carreira acadêmica. Sua formação foi marcada pelo contato com importantes pensadores e correntes filosóficas, que influenciariam profundamente sua obra.

Percurso literário

Embora sua formação principal seja em filosofia, Bento Prado Júnior desenvolveu um trabalho notável como crítico literário. Sua análise da obra de diversos autores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, é marcada por uma perspectiva filosófica aguçada. Publicou artigos em revistas especializadas e participou de debates intelectuais, contribuindo para a interpretação e a valorização da literatura sob um prisma crítico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Bento Prado Júnior é caracterizada pela rigorosidade conceitual e pela clareza expositiva. Seus estudos frequentemente abordam a relação entre linguagem, pensamento e experiência humana. Na crítica literária, ele se destacou por sua capacidade de desvendar as camadas filosóficas e existenciais presentes nas obras literárias, promovendo uma leitura profunda e instigante. Seu estilo é marcado pela precisão terminológica e pela articulação de ideias complexas de forma acessível.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bento Prado Júnior atuou em um período de efervescência intelectual no Brasil, especialmente nas universidades. Sua pesquisa se insere no diálogo com as grandes correntes filosóficas do século XX, como a fenomenologia de Husserl e Heidegger, e o existencialismo de Sartre e Camus. Seu trabalho como professor na USP contribuiu para a formação de uma geração de pensadores e críticos, influenciando debates sobre cultura, arte e filosofia no país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Bento Prado Júnior são menos proeminentes em sua biografia pública, que se concentra mais em sua produção intelectual e acadêmica. Sua dedicação ao estudo e ao ensino da filosofia e da crítica literária parece ter sido o foco de sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bento Prado Júnior é amplamente reconhecido no meio acadêmico brasileiro como um importante filósofo e crítico literário. Sua obra é referenciada em estudos sobre fenomenologia, existencialismo e teoria literária, atestando a relevância de suas contribuições para o pensamento contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bento Prado Júnior foi influenciado por filósofos como Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, entre outros. Seu legado reside em sua capacidade de trazer a filosofia para o diálogo com a literatura e a cultura, enriquecendo a compreensão de ambas. Sua obra continua a ser uma referência para estudantes e pesquisadores interessados nas intersecções entre filosofia e as artes.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Prado Júnior é fundamental para a compreensão da recepção e do desenvolvimento de correntes filosóficas europeias no Brasil, bem como para a análise de como essas ideias se manifestam na produção literária nacional e internacional.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua atuação como professor na USP foi marcada por um grande número de alunos e pela admiração de muitos que foram por ele inspirados a seguir carreira acadêmica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Bento Prado Júnior faleceu em 2000, deixando um importante acervo de estudos e reflexões que continuam a ser consultados e debatidos no campo da filosofia e da crítica literária no Brasil.

Poemas

10

Coração de pedra

Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;

a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.

É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.

Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.

1 308

Casa Destelhada

A casa é um templo humilde, em cujo tecto
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.

Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.

Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!

Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...

1 596

A Lua-Cheia

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!

A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!

Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...

Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...

1 366

A Minha Cruz

Esta cruz que me coube por herança,
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.

Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!

Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!

Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!

1 231

À Minha Filha

Nos momentos terríveis de abandono,
quando o sol nega luz ao claro dia
ou a noite cruel me rouba o sono,
como a tua saudade me excrucia!

Mas, quando às mãos divinas me abandono,
seguro amparo à humana desvalia,
sinto que és quem me eleva ao eterno trono,
condutor excelente, excelso guia.

És a luz que alumia a minha estrada,
anjo bom que me guia os tardos passos,
para elevar-me ao termo da escalada.

Sinto erguer-me feliz pelos espaços,
criatura mesquinha, sombra, nada,
na infinita riqueza dos teus braços!

1 041

A Rendeira

Rendeira, boa rendeira
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...

Desde que o dia amanhece,
rendeira tece que tece,
não pára de tecer...

E o branco urdume entretece,
com o alvor da sua prece
roubado do amanhecer!

Tem na renda o seu cuidado,
tece-a para o seu noivado...
Mais alva não pode ser!

Mas por arte do malvado,
não tinha o lavor findado,
fere a sua nívea mão...

E o sangue corre encarnado
mancha-lhe todo o rendado...
Quanta dor no coração!

E a rendeira se entristece,
pois na renda que ela tece,
a imagem da vida tem,
cujo tecido oferece
manchas de sangue também...

Rendeira boa rendeira,
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...

2 091

Sou monge perdido

Eu venho de longe,
não sei donde vim...
Sou monge perdido
das praias sem fim...

Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
Ao longo da estrada,
a quanto me apego,
apego-me em vão;
tropeço nas pedras
e caio no chão...
Sou monge perdido
das praias sem fim...

Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
De nada me lembro
do muito que vi...
Sou monge perdido
das praias sem fim...

Caminhos malditos
marcaram-me os pés,
as urzes da estrada
feriram-me as mãos...
Os pés sempre prontos,
embora a sangrar,
palmilham o chão;
as mãos sempre abertas,
afeitas a dar,
semeiam o perdão...

As novas que trago,
são novas do Rei...
Não digo mentiras,
só digo o que sei...
Está tudo escrito,
à guisa de lei,
no cerne, na carne,
no firme, no vivo
do meu coração...

As novas que trago,
mensagem de amor,
nascidas comigo,
eu sei-as de cor...

Sou monge perdido
das praias sem fim.

1 272

II

A Manoel Carlos
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço

surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,

ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,

resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.

1 159

I

A petite soeur Therezinha de Jesus

"Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo,
Que eu mesmo sou meu perigo"

LUIS DE CAMÕES
Não sou eu quem o diz!
Mas este corpo estranho pulsa em mim
como um coração, não meu, mas de alguém
composto de outras fibras, outras carnes

que não estas humanas. Quem me obriga
será antes a dor, que, incrustada
em meu ser, já se não distingue da
composição escassa de meu corpo,

veículo insolúvel que a transporta,
Anjo ou dor ou enfim força alheia ao
arbítrio da vontade, nem sequer

válida no restrito território
que sou, a mim me impinges a palavra:
impõe-se o canto à boca que o articula.

1 315

Como se engana o século presente

Como se engana o século presente,
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!

Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.

Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,

onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!

1 326

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.