Lista de Poemas
A Lua-Cheia
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
Casa Destelhada
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.
Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.
Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!
Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...
Coração de pedra
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
I
"Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo,
Que eu mesmo sou meu perigo"
LUIS DE CAMÕES
Não sou eu quem o diz!
Mas este corpo estranho pulsa em mim
como um coração, não meu, mas de alguém
composto de outras fibras, outras carnes
que não estas humanas. Quem me obriga
será antes a dor, que, incrustada
em meu ser, já se não distingue da
composição escassa de meu corpo,
veículo insolúvel que a transporta,
Anjo ou dor ou enfim força alheia ao
arbítrio da vontade, nem sequer
válida no restrito território
que sou, a mim me impinges a palavra:
impõe-se o canto à boca que o articula.
II
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
Sou monge perdido
não sei donde vim...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
Ao longo da estrada,
a quanto me apego,
apego-me em vão;
tropeço nas pedras
e caio no chão...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
De nada me lembro
do muito que vi...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Caminhos malditos
marcaram-me os pés,
as urzes da estrada
feriram-me as mãos...
Os pés sempre prontos,
embora a sangrar,
palmilham o chão;
as mãos sempre abertas,
afeitas a dar,
semeiam o perdão...
As novas que trago,
são novas do Rei...
Não digo mentiras,
só digo o que sei...
Está tudo escrito,
à guisa de lei,
no cerne, na carne,
no firme, no vivo
do meu coração...
As novas que trago,
mensagem de amor,
nascidas comigo,
eu sei-as de cor...
Sou monge perdido
das praias sem fim.
A Minha Cruz
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
A Rendeira
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
Desde que o dia amanhece,
rendeira tece que tece,
não pára de tecer...
E o branco urdume entretece,
com o alvor da sua prece
roubado do amanhecer!
Tem na renda o seu cuidado,
tece-a para o seu noivado...
Mais alva não pode ser!
Mas por arte do malvado,
não tinha o lavor findado,
fere a sua nívea mão...
E o sangue corre encarnado
mancha-lhe todo o rendado...
Quanta dor no coração!
E a rendeira se entristece,
pois na renda que ela tece,
a imagem da vida tem,
cujo tecido oferece
manchas de sangue também...
Rendeira boa rendeira,
não deixarás de tecer,
que o tecido é trabalheira,
que a gente, queira ou não queira,
há de ter a vida inteira,
como castigo e prazer...
Como se engana o século presente
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
À Minha Filha
quando o sol nega luz ao claro dia
ou a noite cruel me rouba o sono,
como a tua saudade me excrucia!
Mas, quando às mãos divinas me abandono,
seguro amparo à humana desvalia,
sinto que és quem me eleva ao eterno trono,
condutor excelente, excelso guia.
És a luz que alumia a minha estrada,
anjo bom que me guia os tardos passos,
para elevar-me ao termo da escalada.
Sinto erguer-me feliz pelos espaços,
criatura mesquinha, sombra, nada,
na infinita riqueza dos teus braços!
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