Escritas

Lista de Poemas

Canto de Alma e Flores

Fantasio a alma
com o canto da consciência

Há pinheiros bordados na toalha
e perfume de hortênsias no jardim

No grito estridente do grilo
vão-se as horas
e num galho seco
a cotovia canta

Mas chega a noite
a chama da lamparina oscila
e na toalha
os pinheiros deixam cair folhas mortas

Amo esse quadro
esse recanto em que me escondo

E me preparo
para colher as flores da manhã.

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Busca

Um quadro futurista
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão

O pensamento busca mistérios
cria mantras

enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.

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A Casa

A casa era de seda
sorrisos e alecrim

Na casa ecoavam
cantigas de roda
tinir de talheres
arrastar de chinelos
vozes de bichos

Tinha quadros de santos
retratos sisudos
miado de gatos
moringa de barro

A casa era tépida
cheirava a pêssego
amora
goiaba
manga-espada

No porão escuro
a casa escondia relíquias:
bordados de renda
passados do tempo,
tempo das moças
hoje grisalhas

A casa era um mito

Na mesa da casa
um gosto de festa:
arroz branco, lombo frito
couve-flor, caruru
o melado adoçando lembranças
o leite branqueando a noite

A casa era um livro
de vida e de vidas:
enchendo os espaços
os gritos da infância
o cheiro do café coado

A casa era acesa:
no fogão de lenha
o avô aquecia os pés frios,
mãos quentes de proteção

A casa prendia verdades
dentro do aconchego:
gradeava afetos
segredos
desafetos
medos

A casa não era estática
viajava conosco

Que saudade da casa
com portões de madeira
e de ferro
trancando risos mágoas
escondendo o pudor da família
......................................

A casa não é mais a casa
é uma casa
e eu sou uma saudade
da casa.

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Prismático

Toca o mistério da cumeeira
o bico da gralha azul

Ali a casa de fogo
o riso desvairado
o céu aquecido de astracã

A gralha azulando o tempo
a cumeeira se desmistificando
e os olhos contemplando
os segredos da casa que sorri

Prelúdio de aurora.

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in Certeza

Para onde irá minha alma
depois da apoteose?

Irá comigo
a certeza de quê?

Não sei se os anos idos
selarão o encontro
vida/morte
com fluxos de sol.

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Karma

Saber travar o gosto da framboesa
louvar a luz do sol
fugir da neve que estilhaça

O vento
o vento em manhãs de rocio
e á noite o fanal das madrugadas
em portos ancestrais

Gente de olhar gris e têmpora marcada
ou gente aos trapos
tropa de trapos
e o rio a correr
levando troncos e cardumes.

👁️ 874

Do Tempo

No flanco das rochas
a marca de carneiros
emancipados

O giro das cirandas
travando a liberdade das esferas

E na eclosão das uvas, mães do vinho
a saudação telúrica dos pâmpanos

As aranhas tecendo mandalas
os relógios registrando ausências
enquanto a mariposa adeja sem rumo
tentando frustrar a arrogância dos ventos
num incontido descaso do amanhã

Cumprem-se as sentenças do Universo
e o Tempo se traja de compromissos.

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Palavras

O aclive convida-nos à luta. Anima-nos a aventura da escalada: ela nos leva a antever Polymnia no cimo da montanha. Alçamos os braços como a querer sondar o Infinito, na busca dos encantos da musa, de seu aconchego.
Aqui nos repetimos, no intuito de levar a nossos leitores algo que vagueia nos labirintos da fala. O mistério, às vezes, condiz com a beleza da arte. É-nos importante lançar idéias positivas: fomentar o tormento não faz sentido.
Cada um de nós é responsável pela alegria do mundo porque fazemos parte de toda essa loucura que passeia pelo tempo.
Não podemos deixar que nossos olhos se molhem no pranto de ontem.

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