Escritas

Lista de Poemas

Aguardo Deus com gula.

Aguardo Deus com gula.
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FOME

Meu gosto, agora se encerra
Em comer pedras e terra.
Só me alimento de ar,
de rochas, de carvão, de ferro.

Pastai o prado de feno,
Ó fomes minhas.
Chamai o gaio veneno
Das campainhas.

Comei o cascalho que seja
Das velhas pedras de igreja;
Seixos de antigos dilúvios,
Pão semeado em vales turvos.


Uiva o lobo na folhagem,
Cuspindo a bela plumagem
Das aves de seu repasto :
É assim que me desgasto.

As hortalicas, as frutas
Esperam só a colheita.
Mas o aranhão da hera
Não come senão violetas.

Que eu adormeca, que eu arda
Nas aras de Salomão.
Na ferrugem escorre a calda
E se mistura ao Cedrão.

Enfim, ó ventura, ó razão, afastei do céu o azul,
que é negro, e vivi, centelha de ouro, dessa
luz natureza. De alegria, adotava a expres-
são mais ridícula e desvairada possível :

Achada, é verdade ?!
Quem ? A eternidade.
É o mar que o sol
Invade

Observa, minh´alma
Eterna, o teu voto
Seja noite só,
Torre o dia em chama.

Que então te avantajes
A humanos sufrágios,
A impulsos comuns !
Tu voas como os...

- Esperanca ausente,
Nada de oriétur
Ciência paciência,
Só o suplício é certo.

O amanhã não vem,
Brasas de cetim.
Deves o ardor
Ao dever doar.

Achada, é verdade ?!
- Quem ? - A Eternidade.
É o amor que o sol
Invade.


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CASTELOS, ESTAÇÕES

Castelos, estações,
Que almas é sem senões?

Castelos, estações.

Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.

Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.

Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.

O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.

O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.

Castelos, estações!

E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.

Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!

- Castelos, estações!


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AS CATADORAS DE PIOLHOS

Quando a fronte do infante, vermelha das tormentas,
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.

Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.

Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?

Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.

Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.

(Tradução
de Rubens Torres Filho)

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Comentários (1)

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Luis
Luis
2023-01-26

Autor maravilhoso