António Ferreira

António Ferreira

1528–1569 · viveu 41 anos PT PT

António Ferreira foi um poeta e dramaturgo português da Renascença, considerado uma das figuras centrais do Classicismo em Portugal. A sua obra, marcada pela erudição e pelo rigor formal, procurou imitar os modelos greco-latinos, introduzindo no país novas formas poéticas e temáticas. Foi um pioneiro na escrita de tragédias de cunho clássico em língua portuguesa, explorando temas mitológicos e históricos com uma linguagem elevada e um profundo sentido estético. O seu legado é fundamental para a consolidação do cânone literário português.

n. 1528-01-01, Lisboa · m. 1569-11-29, Lisboa

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Os medos

A medo vivo, a medo escrevo e falo
Hei medo do que falo só comigo;
mas inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
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Biografia

Identificação e contexto básico

António Ferreira, frequentemente referido como "o Clássico", foi um poeta e dramaturgo português. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. Pertenceu à geração do Renascimento português e escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

António Ferreira nasceu em Lisboa, numa família de certa proeminência social. Recebeu uma educação esmerada, tendo estudado Direito em Coimbra, onde obteve o grau de doutor. Durante a sua formação, absorveu profundamente os valores humanistas da Renascença e o estudo aprofundado dos autores clássicos greco-latinos, como Virgílio e Horácio, que viriam a ser as suas maiores influências.

Percurso literário

O percurso literário de António Ferreira é marcado pela sua tentativa de renovação da poesia e do teatro portugueses, seguindo os preceitos do Classicismo. Começou a escrever nos seus anos de formação em Coimbra, sob a influência do ambiente intelectual da universidade e dos ideais renascentistas. A sua obra desenvolveu-se em torno da imitação e adaptação dos modelos clássicos, tanto na poesia lírica quanto na dramática. Colaborou com outros intelectuais da época, mas a sua atividade principal centrou-se na produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra principal de António Ferreira inclui "Poemas Lusitanos" (publicado postumamente em 1595), uma coletânea que reúne sonetos, odes, éclogas e elegias, e as tragédias "Tragédia de Inês de Castro" e "Tragédia de Bristo" (publicadas em 1587). Temas dominantes na sua obra são o amor (muitas vezes de forma idealizada e platónica), a morte, a pátria e a reflexão sobre a condição humana, sempre filtrados por uma visão clássica. No estilo, Ferreira é um mestre da forma, utilizando predominantemente o soneto e o verso decassílabo, com um rigor métrico exemplar. A sua linguagem é elevada, culta e sonora, repleta de alusões mitológicas e referências clássicas. O tom é frequentemente lírico, por vezes elegíaco, e a sua voz poética procura a universalidade através da adesão aos modelos clássicos. Introduziu em Portugal a tragédia de cunho clássico, adaptando modelos como os de Sêneca, e procurou elevar a língua portuguesa a um patamar de sofisticação literária comparável às línguas clássicas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Ferreira viveu durante o auge do Renascimento em Portugal, um período de grande efervescência cultural e de expansão marítima. Pertencia à chamada "Geração de Sá de Miranda", que se dedicou à introdução e adaptação dos géneros e formas da literatura clássica na literatura portuguesa. A sua obra reflete o espírito humanista da época, com a valorização do saber, da razão e da beleza formal. A sua dedicação aos modelos clássicos era uma forma de afirmação cultural e de busca de excelência literária.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal António Ferreira era um homem de lei e letras. Para além da sua atividade literária, exerceu a advocacia. A sua vida pessoal, embora não extensivamente documentada em detalhes íntimos, foi marcada pela dedicação ao estudo e à produção literária, num contexto de forte rigor intelectual próprio da época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Ferreira foi amplamente reconhecido em vida e postumamente como um dos maiores vultos da poesia e do teatro clássicos portugueses. A sua obra foi considerada um marco na literatura nacional, servindo de modelo para gerações posteriores de escritores. É visto como o principal responsável pela introdução e consolidação do Classicismo em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As principais influências de António Ferreira foram os poetas e dramaturgos da Antiguidade Clássica, como Virgílio, Horácio, Ovídio e Sêneca. O seu legado é imenso, pois não só enriqueceu a poesia portuguesa com novas formas e temas, mas também inaugurou o teatro clássico em língua portuguesa. Influenciou profundamente poetas como Luís de Camões e as gerações seguintes de autores classicistas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de António Ferreira é um exemplo paradigmático do humanismo renascentista e da busca pela perfeição formal. As suas tragédias exploram a fragilidade humana perante o destino e a moralidade dos atos, enquanto a sua poesia lírica debruça-se sobre a fugacidade do tempo, a beleza e a dor do amor, sempre com um olhar filosófico e erudito.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre António Ferreira é que ele dedicou o seu conhecimento jurídico à defesa de causas. Embora a sua fama literária seja proeminente, o seu percurso como jurista também era notável.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Ferreira faleceu em Lisboa. As suas obras mais importantes foram publicadas postumamente, o que demonstra a importância que lhe era dada pela comunidade literária da época. A sua memória é perpetuada como o "poeta e dramaturgo clássico" de Portugal.

Poemas

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Os medos

A medo vivo, a medo escrevo e falo
Hei medo do que falo só comigo;
mas inda a medo cuido, a medo calo.
Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.
Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.
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É a medo que escrevo

É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo.
José Cutileiro, poeta português, nascido em 1931.
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Carta

Fez força ao meu intento a doce e branda
Musa tua, Bernardes, que a meu peito
Dá novo espírito, novo fogo manda.

Como um juízo queres que sujeito
Viva a tantos juízos, se não guarda
De tanto riso o rosto contrafeito?

Quanto em mi mais das musas o fogo arde,
Tanto trabalho mais para apagá-lo:
Quanto o silêncio val sabe-se tarde.

A medo vivo, a medo escrevo e falo;
Hei medo do que falo só comigo;
Mais inda a medo cuido, a medo calo.

Encontro a cada passo com um inimigo
De todo bom espírito: este me faz
Temer-me de mi mesmo, e do amigo.

Tais novidades este tempo traz,
Que é necessário fingir pouco siso,
Se queres vida ter, se queres paz.

Vida em tanta cautela, tanto aviso,
Quando me deixarás? quando verei
Um verdadeiro rosto, um simples riso?

Quando a mi me creram, todos crerei
Sem dúvida, sem cores, sem enganos,
E eu, que de mi mesmo seja reis

Ali tantos dias tristes, tantos anos
Levados pelos ares em desejos
De falsos bens, e nossos tristes danos!

A quem os deixa e foge, quão sobejos
Lhe parecem mais bens que os que só bastam,
Desviar da virtude os cegos pejos.

Quantos as vidas, quantos almas gastam
Em buscar seu perigo, e sua morte,
E trás ela seus jugos cruéis arrastam

Aqueles vivem só, a que coube em sorte
Ao som da flauta, que dos ombros pende,
O mundo desprezar com espírito forte.

Toda minhalma em desejar se estende
A doce vida, que tão doce cantas,
Que quase a força quebra, que me prende.

Mas ajunta a estas forças outras tantas,
Todas quebraria eu, se asas tivesse
Com que chegasse onde me tu levantas.

Se eu pudesse, Bernardes, se eu pudesse
Ser senhor só de mi, eu voaria
Onde do vulgo mais longe estivesse.

Ali quão livremente me riria
De quanto agora choro! ali meu canto
Livre por ares livres soltaria.

Enquanto me vês preso, amigo, enquanto
Sem espírito, sem forças, não me chames
Com teus versos, que a ti só honram tanto.

Por mais que me desejes, mais que me ames,
Não empregues em mi tão cegamente
Teu canto com que é bem que heróis afames.

Mas tratarei contigo amigamente
Do conselho que pedes, juízo e lima
Tem em si todo humilde e diligente.

Quem tanto a si mesmo ama, tanto amima,
Que a si se favorece, e se perdoa,
Que espírito mostrará em prosa ou rima?

Tais são alguns a que triste a hera coroa
Roubada do vão povo ao claro espírito
Que esconder-se trabalha, e então mais soa.

Aquele dá de si público grito:
Este cala e se esconde: o tempo enfim
Uma apaga; imortal faz doutro o escrito.

A primeira lei minha é, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim não creia,
Nem os que levemente se me rim.

Conheça-me a mi mesmo: siga a veia
Natural, não forçada: o juízo quero
De quem com juízo, e sem paixão me leia.

Na boa imitação e uso, que o fero
Engenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.

Muito, ó poeta! o engenho pode dar-te;
Mas muito mais que o engenho, o tempo e o estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.

É necessário ser um tempo mudo:
Ouvir e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor, cometer tudo?

Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ó alto monte
Ao brando Apolo, às nove irmãs aceita.

Do bom escrever, saber primeiro é fonte:
Enriquece a memória de doutrina
De que um cante, outro ensine, outro se conte.

Isto me disse sempre uma divina
Voz à orelha; isto entendo e creio;
Isto ora me castiga, ora me ensina.

Cada um para seu fim, busca um meio:
Quem não sabe do ofício, não o trata;
Dos que sem saber escrevem o mundo é cheio.

Se ornares de fino ouro e branca prata
Quanto mais e melhor já resplandece,
Tanto mais val o engenho, sua arte se ata.

Não prende logo a planta, não florece
Sem ser da destra mão limpa e regada,
Co tempo e arte flor fruto parece.

Questão já foi de muitos disputada
Se obra em verso arte mais, se a natureza?
Uma sem outra val ou pouco ou nada.

Mas eu tomaria antes a dureza
Daquele que o trabalho e arte abrandou,
Que destoutro a corrente e vã presteza.

Vence o trabalho tudo; o que cansou
Seu espírito e seus olhos, alguma hora
Mostrará parte alguma do que achou.

A palavra que sai uma vez fora,
Mal se sabe tornar: é mais seguro
Não tê-la, que escusar a culpa agora.

Vejo teu verso brando, estilo puro,
Engenho, arte, doutrina: só queria
Tempo e lima de inveja forte muro.

Ensina muito, e muda um ano e um dia:
Como em pintura os erros vai mostrando
Depois o tempo, que o olho antes não via.

Corta o sobejo, vai acrescentando
O que falta, o baixo ergue, o alto modera,
Tudo a uma igual regra conformando.

Sirva própria palavra ao bom intento;
Haja juízo e regra e diferença
Da prática comum ó pensamento.

Dana ó estilo às vezes a sentença;
Tão igual venha tudo, e tão conforme,
Que em dúvida este ver qual deles vença.

Mas deligente assim a lima reforme
Teu verso, que não entre pelo são,
Tornando-o, em vez de orná-lo, então disforme.

O vício que se dá ó pintor, que a mão
Não sabe erguer da tábua, fuge: a graça
Tiram, quando alguns cuidam que a mais dão.

Roendo o triste verso, como traça
Sem sangue o deixam, sem espírito e vida:
Outro o parto sem forma traz à praça.

Há nas coisas um fim, há tal medida,
Que quanto passa, ou falta dela, é vício:
É necessária a emenda bem regida.

Necessário é, confesso, o artifício,
Não afeitado: empece a tenra planta
O muito mimo, o muito benefício.

Às vezes o que vem primeiro, tanta
Natural graça traz, que uma das nove
Deusas parece que o inspira e canta.

Qual é a língua cruel, que inda ouse e prove
Em vão ali seus fios? deixe inteiro
O bem-nascido verso, o mau renove?

Não mude, ou tire, ou ponha, sem primeiro
Vir os ouvidos do prudente esperto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.

Engana-se o amor-próprio, falso e incerto
Também se engana o medo de aprazer-se;
Em ambos erro há quase igual e certo.

Para isto é bom remédio às vezes ler-se
A dois ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então melhor a ver-se.

Ali como juiz então me vejo:
Sinto quando igual vou, quando descaio,
Quando doutra maneira me desejo.

Quando eu meus versos lia ao meu Sampaio,
"Muda (dizia) e tira". Ia, e tornava:
"Inda (diz) na sentença bem não caio".

O que mais suavemente me soava,
O que me enchia o espírito, por mau tinha;
O que me desprazia me louvava.

Então conheci eu a dita minha
Em tal amigo, tão desenganado
juízo e certo, em que eu confiado vinha.

Quem dos olhos tantos lido, quem julgado
De tanto inimigo às vezes há de ser,
Convém tempo esperar, e ir bem armado.

Isto me faz, Bernardes meu, temer
No teu, como no meu: não val escusa;
Dói muito ver meu erro, e arrepender.

Quem louva o bom? quem bom e mau não escusa?
Mas tu não tens razão de temer muito,

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