Antonio Damásio Rêgo Filho

Antonio Damásio Rêgo Filho

Antonio Damásio Rêgo Filho é um poeta e escritor brasileiro cuja obra se caracteriza pela profundidade lírica e pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, a identidade e as relações humanas. Sua poesia transita entre o íntimo e o social, com uma linguagem que busca a precisão imagética e a musicalidade. A obra de Rêgo Filho frequentemente aborda a condição humana em suas diversas facetas, utilizando uma escrita que convida à reflexão e à introspecção. Seus poemas revelam um olhar sensível sobre o mundo, capaz de capturar a beleza e a melancolia do existir.

n. , Cachoeira, Bahia, Brasilmorte_data = {{nowrap|{{morte|lang=br|6|7|1871|14|3|1847 · m. , São Paulo, SP, Brasil

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Ulisses a Teus Pés

Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Antonio Damásio Rêgo Filho é um poeta e escritor brasileiro. Sua obra se insere no panorama da literatura contemporânea em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Antonio Damásio Rêgo Filho não são amplamente divulgadas em fontes literárias. Presume-se que suas leituras e experiências de vida tenham sido fundamentais para o desenvolvimento de sua sensibilidade poética e de sua visão de mundo.

Percurso literário

O percurso literário de Antonio Damásio Rêgo Filho é marcado pela publicação de obras poéticas que exploram a fundo a condição humana. Sua escrita evolui na articulação entre o eu lírico e o mundo exterior, com uma linguagem que busca a expressividade e a profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Antonio Damásio Rêgo Filho destaca-se pelo lirismo e pela exploração de temas como a memória, o tempo, a identidade, a saudade e as relações interpessoais. Sua poesia caracteriza-se pela busca de uma linguagem precisa e imagética, capaz de evocar sensações e reflexões profundas. Utiliza, frequentemente, o verso livre, explorando a sonoridade e o ritmo para conferir musicalidade aos seus poemas. O tom de sua voz poética pode variar entre o confessional e o reflexivo, sempre com um olhar atento às nuances da existência. A sua escrita estabelece um diálogo com a tradição, mas com uma sensibilidade marcadamente contemporânea, abordando questões existenciais de forma íntima e universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antonio Damásio Rêgo Filho atua no cenário literário brasileiro contemporâneo, um período marcado pela diversidade de estilos e pela pluralidade de vozes. Sua obra dialoga com as preocupações de seu tempo, refletindo sobre a complexidade do mundo moderno e a busca por sentido.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Antonio Damásio Rêgo Filho não são proeminentes nas informações literárias disponíveis, mas é razoável supor que suas vivências moldam a perspectiva e a profundidade de sua obra poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Antonio Damásio Rêgo Filho tem sido reconhecida por sua qualidade estética e pela relevância de suas temáticas, conquistando um espaço no cenário literário contemporâneo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam detalhadas, a obra de Rêgo Filho reflete uma conexão com a tradição lírica da poesia em língua portuguesa, ao mesmo tempo em que apresenta uma abordagem moderna e pessoal. Seu legado se constrói na capacidade de emocionar e provocar a reflexão através de sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Antonio Damásio Rêgo Filho pode ser interpretada como uma meditação sobre a experiência do tempo e da memória, e sobre como estas moldam a identidade individual. Sua poesia convida a uma análise da fragilidade e da beleza das relações humanas, e da constante busca por significado em um mundo em transformação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida e dos hábitos de escrita de Antonio Damásio Rêgo Filho não são amplamente disseminadas, permitindo que o foco principal recaia sobre sua produção literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Antonio Damásio Rêgo Filho é um autor contemporâneo e sua obra continua a ser produzida e a ser lembrada. Sua memória e legado estão em plena construção através de sua produção literária.

Poemas

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Ulisses a Teus Pés

Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras
desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio
que te dita a crônica de amanhã
e a de depois-de-amanhã,
palimpsesto de tua vida.
Mastigaremos a crônica de hoje
no café de amanhã
não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa
previamente torturado no calor da água viva,
indispostos a comê-lo, indigesto,
atrasados que estamos
para voltar a Terra Prometida
ao encalço do patriarca ensandecido,
que com o toque do báculo extrairá
água fresca da pedra
chicoteada pelo sol do deserto
em obediência aos ditames de Javé,
o inominado Deus de teus ancestrais,
Clarice Lispector.
Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC,
a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy",
muito assemelhada à rapsódia de tua autoria,
a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida
na Vida de Ângela Pralini",
tracejada entre baforadas de cigarro
e infinitos goles de café
naquela noite em que,
tombada de tristeza,
resvalaste para um súbito estado de graça
e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia!
Ulisses virá postar-se a teus pés
atento ao ritmo da velha Remington,
alheio a Debussy.
Ou será agora a Olivetti?
Ou será, daqui a pouco,
a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"?
As pilhas gastas do rádio
serão substituídas
por outras bem guardadas
na gaveta do criado-mudo
onde se escondem os maços de cigarro
e os talões de cheque e os lenços de papel
manchados de batom e de provisória escrita.
Que alívio não precisar chamar um táxi,
sair na chuva
para comprar pilhas novas em Bangu.
O cigarro na boca desamparado
prenuncia o espocar das fagulhas no colchão.
Quando o incêndio avermelhar tua visão
não tirarás a mão da labareda solitária,
tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral,
facho a iluminar a via-crucis
das histórias sensuais
que escreverias com mais volúpia,
não tivessem sido encomendadas
por telefone,
preço e prazo definidos.
Só interromperias o trabalho
às cinco da madrugada
para telefonar a alguém:
"Você se permite falar comigo
a essa hora da madrugada,
você aceita minha amizade?"
Ninguém a essa hora ousaria atender-te
ninguém a essa hora ousaria distrair-te
quando se sabe que, a essa hora,
estás cometendo o tremendo ato de viver,
encharcada da lucidez perigosa.
Não, é muito cedo ainda.
A velhinha, qual galho
abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis
pode esperar.
Não, não vá de táxi acudi-la,
deixa-a comendo biscoitos na bruma,
quanto a ti, retira a velha Remington do colo,
levanta e faça um bom café,
empenha-te em escrever de forma mais humilde,
desiste de deixar de ser hermética,
aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética,
não recuses o sofrimento de viver com falta de ar
e tampouco recuses o convite
para o congresso das bruxas em Bogotá.
Não, não ria esse riso raro,
poderás viajar de avião,
sem precisar chegar montada numa vassoura
ao aeroporto de Bogotá
escondendo nas lentes negras dos óculos
o temor das pessoas que poderá encontrar
feias, esqueléticas, paramentadas
em negras túnicas e chapéus coni-cômicos;
elas não serão mais feias e asquerosas
que a barata daquela noite agônica.
Às cinco da madrugada de hoje,
recostada no sofá da sala,
Clarice Lispector é monumento nacional
tombado em estado de graça.
A crônica está pronta,
o pão dos filhos garantido,
os rins ataviados,
na boca o amargor das ervas rituais,
antepasto do êxodo,
a mala pronta para o hospital.
Amanhã cedo, antes de tudo,
pegarás um táxi e atravessarás o túnel,
entrarás na igreja de Santa Teresinha,
aspirarás o cheiro funerário dos círios,
velarás por uns instantes a velhinha
em seu caixão, semelhando uma menina dormindo.
Amanhã, Clarice Lispector se despedirá
do medo de morrer e de viver.
Ditado o arremate do profano saltério,
pronunciará a antífona derradeira
- aleluia! -
gemido de chicote inconformado
com o dever de espancar
os nossos sonhos órfãos.

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