Lista de Poemas
Banquete Ilúdico
quarenta inspirações atropelando-se
descubro que meus ombros são tão frágeis,
tão frágeis são meus ombros:
mas não destroça de todo esse meu corpo
e espírito a avalanche de imagens, não destroça
— tão frágil sou. mas humilde.
E recomeço,
sábio como os que sabem, recomeço. E caio.
Toda a vida é inovação e surpresa, aí de nós.
Tempo
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
Estudo 30
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.
Nosso tempo é assim: seco e compulsório.
2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.
O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.
3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)
Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)
Os Instrumentos e Ofícios
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.
Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.
Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.
Estudo 11
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.
Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.
Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.
Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.
Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes
calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.
As Chamas Passionais
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.
Resquício
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
Mágoa
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
Canto de Flor e de Ódio
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.
(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;
tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;
tempo do ódio conciso)
Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.
Marcharemos contra o sol!
Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.
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