António Afonso Bernardino

António Afonso Bernardino

1851–1944 · viveu 93 anos PT PT

António Afonso Bernardino é um poeta cuja obra se caracteriza por uma forte ligação à terra e às raízes, explorando temas como a identidade, a memória e a ancestralidade. A sua poesia reflete um olhar atento sobre as paisagens, as tradições e as vivências do mundo rural, entrelaçando a nostalgia com uma celebração da vida. Com uma linguagem acessível, mas carregada de significado, Bernardino convida à contemplação da essência das coisas e à redescoberta dos valores que moldam a existência humana, honrando a herança cultural.

n. 1851-03-28, Rio de Janeiro · m. 1944-04-29, Porto

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Duas Pêras

Mote

Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.

I

Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.

II

Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.

III

Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.

IV

Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.

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Poemas

2

Mineiro

Calção feito de remendos,
De borracha a alpercata,
Casaco de saragoça
E um capacete de lata,

E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão.
Na jaula cai água forte,
Estremece o coração.

Oito horas sem ver sol,
Oito horas sem ver lua!
Debaixo das rochas negras
É que a vida continua.

O almoço é uma açorda,
Umas sopas e uns feijões,
O minério vai prò estrangeiro,
O pó fica nos pulmões.

A mulher ficou em casa
À espera de ele chegar.
Às vezes cai uma pedra,
Fica a família a chorar.

E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Perdeu o seu companheiro,
Nem conheceu o patrão.

E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Já não respira mais pó,
Foi pra dentro dum caixão.

(Aljustrel, 1995)

997

Duas Pêras

Mote

Duas pêras que eu tinha
Andavam sempre empinadas
De tanto lhes ter mexido
Estão moles e penduradas.

I

Eram duas pêras perfeitas
Quando um dia as conheci
A primeira vez que as vi
Achei-as muito direitas
Rosadas muito bem feitas
Pareciam cacho na vinha
Uma fruta tão durinha
Que eu gostava de mexer
Levava horas a ver
Duas pêras que eu tinha.

II

Mas que ricas pêras são
Dizia cá para mim
Dá gosto ver fruta assim
Seja de Inverno ou de Verão
Quando lhe jogava a mão
Até as deixava inchadas
Eram sempre bem esfregadas
Fosse de noite ou de dia
Pêras de pele macia
Andavam sempre empinadas.

III

Fruta torrada amarela
Que fruta tão natural
Nem sequer havia igual
Uma fruta como aquela
Tinham uma cor tão bela
Fizeram-me andar perdido
Quase estraguei o sentido
Noutro tempo atrasado
Hoje tenho o fruto estragado
De tanto lhe ter mexido.

IV

Murcharam com a idade
Ficaram todas franzidas
São duas pêras lembidas
Que perderam a vaidade
No tempo da mocidade
Foram muito bem tratadas
Mas já não são apalpadas
Coitadinhas metem dó
São duas peles num pé só
Estão moles e penduradas.

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