Amândio César

Amândio César

1921–1987 · viveu 66 anos PT PT

Amândio César foi um poeta, dramaturgo e ensaísta português, figura proeminente na literatura do século XX. Sua obra é caracterizada pela profundidade lírica, pela exploração de temas existenciais e pela reflexão sobre a condição humana, muitas vezes permeada por uma visão crítica da sociedade e da condição humana.

n. 1921-07-12, Arcos de Valdevez · m. 1987-08-10, Lisboa

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Caminhada

Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.

Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.

Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Amândio César, nome completo Amândio César de Oliveira, foi um poeta, dramaturgo e ensaísta português. Nasceu em 1920 e faleceu em 2002. Pertenceu a uma geração de escritores que marcaram a literatura portuguesa do século XX, num período de grandes transformações sociais e políticas em Portugal.

Infância e formação

Os detalhes sobre sua infância e formação não são extensivamente documentados em fontes acessíveis. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver seu talento literário, absorvendo as influências culturais e literárias de sua época.

Percurso literário

O percurso literário de Amândio César abrangeu poesia, teatro e ensaio. Iniciou sua carreira literária com a publicação de obras que logo chamaram a atenção pela originalidade e profundidade. Ao longo de sua vida, dedicou-se à escrita, explorando diferentes géneros e estilos, sempre com um olhar crítico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Amândio César são marcadas por uma profunda lírica e pela exploração de temas existenciais, como a passagem do tempo, a solidão, a busca por sentido e a condição humana. Sua poesia frequentemente apresenta um tom melancólico e introspectivo, mas também pode ser incisiva e crítica em relação à sociedade. Utilizou diversas formas poéticas, com uma linguagem cuidada e expressiva, que privilegia a densidade imagética e o ritmo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Amândio César viveu e produziu durante um período significativo da história portuguesa, incluindo a ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Sua obra reflete, de certa forma, as tensões e os anseios da sociedade portuguesa da segunda metade do século XX. Ele esteve inserido em círculos literários que debatiam as novas tendências artísticas e culturais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Amândio César, como relações familiares, amizades específicas, ou aspectos de sua trajetória profissional fora da literatura, não são amplamente divulgadas em fontes acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Amândio César obteve reconhecimento no panorama literário português. Sua obra foi objeto de estudo e debate, sendo considerada importante para a compreensão da poesia e do teatro portugueses contemporâneos. Embora não sejam especificados prémios ou distinções individuais, seu nome figura entre os autores relevantes da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências que moldaram a obra de Amândio César, bem como os autores e movimentos que ele, por sua vez, influenciou, carecem de documentação explícita em fontes comuns. No entanto, seu legado reside na qualidade e na profundidade de sua produção literária, que contribuiu para a riqueza da literatura em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Amândio César oferece múltiplas possibilidades de interpretação, convidando à reflexão sobre temas filosóficos e existenciais. A crítica literária tem abordado a complexidade de sua escrita, o lirismo contido e a agudeza de suas observações sobre a vida e a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade de Amândio César, curiosidades sobre seus hábitos de escrita ou episódios marcantes de sua vida são informações que não estão amplamente disponíveis em fontes públicas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Amândio César faleceu em 2002. A memória de sua obra perdura através das publicações e do estudo de sua contribuição para a literatura portuguesa.

Poemas

6

Tudo

Em surdina chegaste
E em surdina te vais:

— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!

E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses

— Por nada!

1 146

Natal

Nasceu!
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.

Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boléia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilômetros

E cheia de neblina e de promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.

O clarão dos holofotes chamou lã os vadios de todas as noites:
Os quarda-noturnos, os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.

S. José e Nossa Senhora choravam:

Todos pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.

Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boléia
Ao Filho de Deus. (... )

1 373

Caminhada

Irmãos!
Não estive nas câmaras de gás,
Nem vi o arame dos campos de concentração.
Fui talvez o último que cheguei,
Mas cheguei.

Não vim para banquetes,
Pois nesta hora desfraldada
Só há choros e lutos,
E esperanças, ainda esperanças,
Numa futura caminhada.

Irmãos!
Nós somos talvez dum mundo novo
E teremos de construir o mundo novo.
Eu sou talvez o último que cheguei
Para os dias do futuro.

1 045

Flor

Eu te sei pura, casta e meiga!

Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.

Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.

Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.

Eu te sei — isso tudo — para mim! ...

1 128

Par ou Pernão

Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.

E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...

Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...

Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?

1 014

Que Hora é Esta?

É em vão que o sol doura
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.

Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.

É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.

Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.

Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.

Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.

1 026

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