Escritas

Lista de Poemas

A Vida

Impressão do Moisés, de Menotti del Picchia

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos;
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e — supremo revés —

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.192. (Obras de Amadeu Amaral
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22 - Em Meditação Introspectiva

Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.

Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.

Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.

E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.

16 de setembro de 1922


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.266. (Obras de Amadeu Amaral
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Palavras, nem Sempre as Leva o Vento

Manda o costume devolver o insulto
com outro insulto igual, senão melhor.
Não procedais assim, que é baixo e estulto.
Temeis o mal? Pois evitai o pior.

Cada palavra que dizeis de vulto,
como o som de um violino anda em redor,
depois de vos revoar no ser oculto,
por onde a ressonância a fez maior.

O violino, porém, não se recorda
do som que um dia lhe vibrou na corda,
e o vosso coração fica a fremir;

e, às vezes, a palavra, além, se esquece,
enquanto em vosso peito permanece,
como pedra que a um lago foi cair.


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Carta de Guia de Meus Filhos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.230. (Obras de Amadeu Amaral
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Crepúsculo Sertanejo

Cai a noite. Um rubor fulge atrás da colina,
cuja sombra se alonga a pouco e pouco, enorme.
A velha árvore, além, verde nuvem, se inclina
para o chão, balançando o vulto desconforme.

É uma nota profunda a vibrar na surdina
das cores e da luz, no amplo vale que dorme.
No silêncio feral, que é uma vaga neblina
de sons, passa-lhe a voz como um borrão informe.

Sob a copa uma forma em cinza se desmancha.
Um boi cansado busca a figueira cansada;
muge, e deita-se, em paz, numa violácea alfombra.

Muge. A fronde e o animal fazem uma só mancha;
o mugido e o rumor da fronde, a mesma zoada.
Manchas de som... Zoadas de cor... Silêncio. Sombra.


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.171. (Obras de Amadeu Amaral
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Tapera

Numa curva da estrada, onde a luz reverbera
num tanque entre ervaçais, aparece uma casa.
Pombas voejam no oitão, sobre a cumeeira rasa.
Tudo ali tem um ar de quem convida, e espera.

Sigo. Chego ao pomar: o capim prolifera;
a guaxima no juá bravo, alta e rija, se casa.
Silêncio. E, no silêncio, o som mole de uma asa
e o fremente chiar da cigarra. É a tapera.

Bato à porta. Ninguém. Olho por uma fresta:
tudo escuro; e no escuro, a descer do telhado,
longas fitas de sol. Nada mais ali resta.

A velha casa morre. Apenas, sobre as lombas
do teto a desabar caminham sem cuidado,
nos pequeninos pés, turturinando, as pombas.


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.170. (Obras de Amadeu Amaral
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2 - A um Manancial de Água Pura

No alto da escarpa, além, escorre e brilha
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.

Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.

Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;

mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.

16 de junho de 1921


Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
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Jamais

A Gastão Bousquet

Jamais, jamais encontrarei aquela
que eu procurava pelo mundo outrora,
como quem mira um céu que não se estrela,
um véu de névoa que não se evapora.

Jamais, jamais. E, solitária vela,
vai-se a Esperança, Desalento em fora.
Jamais há de cessar esta procela,
jamais há de raiar aquela aurora.

Há de morrer esta vontade pura
(o coração aniquilado diz-mo)
na intimidade das secretas mágoas.

E este imenso tesouro de ternura
será como um regato num abismo,
rolando oculto as cristalinas águas.


Publicado no livro Névoa (1910).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.81. (Obras de Amadeu Amaral
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A um Adolescente

A Júlio Mesquita Filho

III

Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.

Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?

Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.

E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.

IV

Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.

A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!

Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.

Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
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Nuvens

Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
— vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...

Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.

Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...

Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido — embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.147. (Obras de Amadeu Amaral
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Rios

A Adalgiso Pereira

Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;

vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;

fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.


Publicado no livro Névoa (1910).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.60. (Obras de Amadeu Amaral
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