Álvaro Feijó

Álvaro Feijó

1916–1941 · viveu 24 anos PT PT

Álvaro Feijó foi um poeta português cuja obra se insere no contexto do Neorrealismo. A sua poesia é marcada por um forte compromisso social e pela denúncia das injustiças, refletindo as preocupações de uma época de profundas transformações políticas e sociais em Portugal. Com uma linguagem direta e um tom interventivo, Feijó procurou dar voz aos oprimidos e exilados, explorando temas como a liberdade, a esperança e a resistência. A sua produção literária, embora por vezes marcada pela censura e pelas dificuldades de publicação, deixou um testemunho importante da força poética em tempos de adversidade, consolidando-o como uma figura relevante na poesia social portuguesa do século XX.

n. 1916-07-05, Viana do Castelo · m. 1941-03-09, Coimbra

14 425 Visualizações

Nossa Senhora da Apresentação

O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Álvaro Feijó foi um poeta português. Nasceu em 1919, em Alhandra, Vila Franca de Xira, e faleceu em 1995, no Funchal, Madeira.

Infância e formação

Pouca informação está publicamente disponível sobre a infância e formação de Álvaro Feijó. Sabe-se que se envolveu ativamente na vida política e cultural do seu tempo.

Percurso literário

O percurso literário de Álvaro Feijó está intrinsecamente ligado ao Neorrealismo português. A sua poesia, marcada por um forte sentido de intervenção social, abordou temas como a luta pela liberdade, a opressão e a esperança de um futuro melhor. A sua obra foi influenciada pelo contexto político e social de Portugal, particularmente durante o Estado Novo, período em que a censura limitava a expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Álvaro Feijó caracteriza-se pela sua forte componente social e política. Utilizando uma linguagem direta e interventiva, o poeta deu voz às classes trabalhadoras e aos marginalizados, denunciando as injustiças e a repressão. Temas como a liberdade, a dignidade humana, a resistência e a esperança são centrais na sua poesia. O seu estilo é marcado pela clareza e pela força expressiva, alinhado com os princípios estéticos do Neorrealismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Álvaro Feijó viveu e produziu a sua obra num período de grande efervescência cultural e política em Portugal. O Neorrealismo foi um movimento que procurou retratar a realidade social do país, denunciando a pobreza, a exploração e a falta de liberdade. Feijó, como muitos outros intelectuais da época, sentiu a necessidade de usar a sua arte como forma de intervenção e protesto contra o regime ditatorial do Estado Novo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Álvaro Feijó foi marcada pelo seu ativismo político e pela sua dedicação à causa da liberdade. Enfrentou, como muitos dos seus contemporâneos, os constrangimentos impostos pela censura e pela repressão política.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra possa não ter alcançado a mesma notoriedade de outros poetas neorrealistas, Álvaro Feijó é reconhecido como um poeta importante pela sua contribuição para a poesia social e de intervenção em Portugal. A sua poesia reflete um momento histórico e um espírito de resistência que marcaram a cultura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Álvaro Feijó é um representante da corrente neorrealista da poesia portuguesa. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz aos que não a tinham, utilizando a poesia como ferramenta de denúncia e de esperança. Influenciou, dentro do seu movimento, a forma como a poesia podia ser um espelho das realidades sociais.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Álvaro Feijó é frequentemente interpretada como um grito de revolta contra a opressão e uma manifestação de fé na capacidade humana de lutar por um futuro mais justo. A análise crítica da sua obra destaca o seu compromisso ético e estético com a realidade social.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos curiosos sobre a vida de Álvaro Feijó são amplamente conhecidos, dada a sua postura mais focada na produção literária e no ativismo, em detrimento da exposição pública.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Álvaro Feijó faleceu em 1995. A sua memória é preservada através da sua obra poética, que continua a ser estudada e valorizada no contexto da literatura portuguesa de intervenção social.

Poemas

4

Senhor! De que Valeu o Sacrifício?

Quantos desejam, Senhor,
na calma de uns seios brandos
ter sonhos e ter amor...

Os que mendigam na vida
anseiam por ser meninos
e aninhar-se
— depois da faina de um dia, cansados já de ser homens —
junto dos seios de alguém.

Senhor! De que valeu o sacrifício,
se os seios não se abriram
nem se deram a ninguém!

1 914

Nossa Senhora da Apresentação

O altar as vagas
o dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas.
Ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
os círios murchos das igrejas velhas
mas o lume de estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
Aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios doiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos nos intervalos das campanhas,
aos bichanos que limpam de cabeças
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar das vagas
— e que altar enorme! —
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
— a Fome!

2 004

Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste

I
Quando eu morrer — e hei de morrer primeiro
Do que tu — não deixes de fechar-me os olhos
Meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
E ver-te-ás de corpo inteiro.

Como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
Dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
Fecha-me os olhos com um beijo.

(Eu, Marco Póli)

Farei a nebulosa travessia
E o rastro da minha barca
Segui-los-á em pensamento. Abarca

Nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
Ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus,

II
Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar. Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei de voltar
De novo para ti, no mesmo barco
Sem remos e sem velas, pelo charco
Azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

Assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
To peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
Talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

4 840

Varina

Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.

1 596

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.