Lista de Poemas
Interrogativamente
Por que esperar mais, e o quê?
Por que pensar em parentes
e indagar por que é que o são?
Por que buscar conhecer
se é real o que o olhar vê,
se é normal a pulsação,
se são o que devem ser
uréia e colesterol?
Em vez de banhos de sol,
por que não banhos de luar?
Por que escrever este poema
e não aquele ou nenhum?
Por que é que o remador rema,
rema, rema, nunca rima,
e eu não rimo barco algum?
quem me assegura que acima
não é um advérbio de tempo
que foi mal classificado?
Por que razão eu contemplo
no meu espelho quebrado
esta barba dura e triste?
Irei fazê-la de novo,
eu que no sábado a fiz?
Por que meter-me entre o povo
pensando que esquecerei
que num pensado país
tive coroa de rei
e já fui muito feliz?
Por que ler, por que não ler
cartas, livros e jornais?
E por que tomar sorvetes
e tristezas vesperais?
Esconder mil cacoetes
por que, para que e como?
Comerei, não comerei
da laranja só um gomo?
Por que saber o que sei?
Por que indagar sem resposta?
E por que fazer perguntas
a tantas coisas defuntas?
Vou escovar estes dentes,
esta barba vou fazer,
vou abrir aquela porta
a todos os meus parentes,
fumar, beber, rir sem mim,
esquecer a vogal i,
— o finíssimo i de fim —,
o o grosso e gordo de boi,
pois o que não nunca foi,
se foi, só foi como se.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
7
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
Depois
Por exemplo: aquele cálculo de pi.
Que será feito daqueles restos de saudade,
destes medos antigos sempre novos?
Em que voltas desaparecerão os sonhos
que enfeitaram de flores o quintal antigo?
Por que caminhos irão andar aqueles ágeis pés?
Sobretudo, como se esvaziará de som a velha voz
e onde afundará o último verde daquela flama esguia?
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série O Rio Escuro.
Ônibus
vai atulhado de gente,
gente que vai trabalhar,
gente que parte cansada,
gente que volta cansada
de um incurável cansaço.
Ônibus que é para todos
os que não podem parar
Ônibus de velhos, moços,
mulheres, meninos, crianças,
estudantes e pedreiros,
pintores e professores,
mecânicos e bombeiros
enfumaçados e tristes
a dormir durante a viagem.
Dormem, mas dormem que sono?
Dormem sonhando que sonhos?
Sonhos de amor ou de guerra?
No espaço ou no chão de terra?
Ai! daqueles que não dormem
e não têm sonho nenhum
no estreito aperto dos bancos
ou de pé aos solavancos
dentro do ônibus mortal
de uma vida não vivida
em que a maior alegria
tem um olhar de tristeza
ri meio sorriso triste
e não desce onde deseja
mas onde o trânsito quer.
Triste ônibus desta vida.
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série Cristal Refratário.
Retorno de Pasárgada
nos palácios, nas ilhas, nas selvas, nos astros da rainha do rei,
só ficou este repleto silêncio, a unânime solidão
que escorre, negro luar, de dentro para fora,
e desce a rampa onde enterrei a aurora.
De tudo, na tristeza de cinza de cada mão,
trouxe uma flor defunta e, na profundidade do meu chão,
dura lágrima que não usarei.
Publicado no livro A outra face da lua (1983).
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
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