Lista de Poemas
QUEIMADAS
Os mortos continuam morrendo
no apagar gradual dos meus dias
Há os que já se foram afogados
pelas inundações do tempo
tossidos das lembranças como se fossem
resfriados ou fumaças exaladas dos cigarros
Deles apenas lembro que os esqueci
no silêncio do interior fundo da não-memória
aquele lugar sem rosto rumor ou nome
onde habitam os sumidos abandonados
deixando em seus sítios agora vagos
velhas covas esperando novos apossados
Em meus pretéritos mais antigos
não me cabem todos os finados
é preciso o cessar de alguns fios
para continuar fiando às lareiras
este tecido tão muito e tanto mal-usado
Mas em mim ainda subsistem incêndios
e o cheiro das carnes queimadas
a me permanecer condenado às saudades
Quando por fim o último morto partir
não havendo ninguém mais a lembrar
é que vou então deixar de existir
no debelar das fogueiras
e no vanescer da minha história
Joaquim Cesário de Mello
no apagar gradual dos meus dias
Há os que já se foram afogados
pelas inundações do tempo
tossidos das lembranças como se fossem
resfriados ou fumaças exaladas dos cigarros
Deles apenas lembro que os esqueci
no silêncio do interior fundo da não-memória
aquele lugar sem rosto rumor ou nome
onde habitam os sumidos abandonados
deixando em seus sítios agora vagos
velhas covas esperando novos apossados
Em meus pretéritos mais antigos
não me cabem todos os finados
é preciso o cessar de alguns fios
para continuar fiando às lareiras
este tecido tão muito e tanto mal-usado
Mas em mim ainda subsistem incêndios
e o cheiro das carnes queimadas
a me permanecer condenado às saudades
Quando por fim o último morto partir
não havendo ninguém mais a lembrar
é que vou então deixar de existir
no debelar das fogueiras
e no vanescer da minha história
Joaquim Cesário de Mello
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ANALÓGICO
Sou analógico
e às vezes até mesmo
um tanto antiquado
Meu tempo é o dos ponteiros
dos relógios e das folhas
descartáveis dos calendários
por onde atravesso
com a mesma fome juvenil
a devorar fases e épocas
Meus brinquedos continuam
feitos de cordas e de madeiras
e dos alumínios das latas
de leite Ninho
e as minhas roupas
manchadas de oitis cheiram
a percevejos e ainda lagrimejo
as queimações das lacerdinhas
Sigo em frente
com olhares dos meus
vinte e poucos anos
vendo muros pichados de 68
nos outdoors coloridos
das butiques e dos boticários
Minhas revoluções e rebeliões
foram apenas não aceitar
virar os anos e fazer aniversários
Joaquim Cesário de Mello
e às vezes até mesmo
um tanto antiquado
Meu tempo é o dos ponteiros
dos relógios e das folhas
descartáveis dos calendários
por onde atravesso
com a mesma fome juvenil
a devorar fases e épocas
Meus brinquedos continuam
feitos de cordas e de madeiras
e dos alumínios das latas
de leite Ninho
e as minhas roupas
manchadas de oitis cheiram
a percevejos e ainda lagrimejo
as queimações das lacerdinhas
Sigo em frente
com olhares dos meus
vinte e poucos anos
vendo muros pichados de 68
nos outdoors coloridos
das butiques e dos boticários
Minhas revoluções e rebeliões
foram apenas não aceitar
virar os anos e fazer aniversários
Joaquim Cesário de Mello
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INFANTICÍDIO*
Na saliva da tua boca
um filho meu agoniza
(se fosse menina
podia ser Camila)
Joaquim Cesário de Mello
(*) originariamente publicado em 1983
um filho meu agoniza
(se fosse menina
podia ser Camila)
Joaquim Cesário de Mello
(*) originariamente publicado em 1983
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AO REDOR DA MESA
sentávamo-nos todos
as tias os primos e os ausentes
Naquela mesa
mastigávamos o tempo
lambuzando os pães
de infâncias e eternidades
Ao redor da mesa
alimentávamo-nos os corpos
de ovos arroz bifes e saladas
enquanto as almas
engordavam de felicidade
Naquela mesa
aprendi as letras as horas
as etiquetas e os rituais
tatuando na memória
rostos ruídos e fantasmas
Ao redor da mesa
passavam-se os dias e os jantares
todos eram felizes, sem saber
que semeávamo-nos
de nostalgias e saudades
Qual o destino das mesas
quando se vão os comensais?
Joaquim Cesário de Mello
as tias os primos e os ausentes
Naquela mesa
mastigávamos o tempo
lambuzando os pães
de infâncias e eternidades
Ao redor da mesa
alimentávamo-nos os corpos
de ovos arroz bifes e saladas
enquanto as almas
engordavam de felicidade
Naquela mesa
aprendi as letras as horas
as etiquetas e os rituais
tatuando na memória
rostos ruídos e fantasmas
Ao redor da mesa
passavam-se os dias e os jantares
todos eram felizes, sem saber
que semeávamo-nos
de nostalgias e saudades
Qual o destino das mesas
quando se vão os comensais?
Joaquim Cesário de Mello
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OUTRAS HISTÓRIAS
E se eu tivesse brotado na hora errada
na semana seguinte ou num minuto atrás
encontraria o mesmo leite que minha boca
amamentou às 6:47 do dia em que fui gerado?
Poderia o seio estar mais cansado
de me esperar chegar atrasado
ou me sentiria de igual jeito
se chegasse um tanto antecipado?
E se por quase pouco não houvesse
caído e nem quebrado o braço
como seria aquele final de tarde
em que passei hospitalizado?
Seria mais calvo se o espermatozoide
do meu pai atingisse o útero ao lado
e os olhos míopes que sempre trago
se tornariam castanhos claros ou azulados?
E se minha mãe preferisse o anterior namorado
tornar-me-ia comerciante, bancário ou advogado
e como ficariam minhas mãos e esta unha encravada?
E se meu avô não morresse nove meses
e alguns dias antes d’eu nascer
que nome me somaria aos sobrenomes
por ora já suficientemente herdados?
E se eu conhecesse Maria primeiro
e com ela houvesse casado
será que até agora estaria ao menos enlaçado
ou será que seria mais feliz divorciado?
Quanto netos hoje contaria
se não acontecesse da minha esposa
ter ficado doente e abortado
e o que teria me decorrido se minha mãe
soubesse nadar e não morresse afogada?
Quem seria hoje se meu pai não fosse poeta
e a casa não vivesse assim cheia de livros espalhados?
Será que eu existiria menos ou somente morreria
no dia em que me for determinado?
Joaquim Cesário de Mello
na semana seguinte ou num minuto atrás
encontraria o mesmo leite que minha boca
amamentou às 6:47 do dia em que fui gerado?
Poderia o seio estar mais cansado
de me esperar chegar atrasado
ou me sentiria de igual jeito
se chegasse um tanto antecipado?
E se por quase pouco não houvesse
caído e nem quebrado o braço
como seria aquele final de tarde
em que passei hospitalizado?
Seria mais calvo se o espermatozoide
do meu pai atingisse o útero ao lado
e os olhos míopes que sempre trago
se tornariam castanhos claros ou azulados?
E se minha mãe preferisse o anterior namorado
tornar-me-ia comerciante, bancário ou advogado
e como ficariam minhas mãos e esta unha encravada?
E se meu avô não morresse nove meses
e alguns dias antes d’eu nascer
que nome me somaria aos sobrenomes
por ora já suficientemente herdados?
E se eu conhecesse Maria primeiro
e com ela houvesse casado
será que até agora estaria ao menos enlaçado
ou será que seria mais feliz divorciado?
Quanto netos hoje contaria
se não acontecesse da minha esposa
ter ficado doente e abortado
e o que teria me decorrido se minha mãe
soubesse nadar e não morresse afogada?
Quem seria hoje se meu pai não fosse poeta
e a casa não vivesse assim cheia de livros espalhados?
Será que eu existiria menos ou somente morreria
no dia em que me for determinado?
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 154
TRINTA ANOS OU MAIS
Ele ainda a esperava
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais
Em meio a livros imaginários
decifrava trovas de amor
no caçar dos versos perfeitos
que nenhum Dante
Camões ou Shakespeare
jamais poderia ter feito
Leria quantidade maior de escritos e papiros
que sequer a Biblioteca de Alexandria possuía
Percorreria os imensos corredores dos anos
que nem o próprio Matusalém conseguiu
Sobreviveria a imortalidade
mais que a soma de todos os deuses
que os milênios outrora soterraram
E ainda assim a esperaria
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais
Sentado no canto invisível
daquele lugar que o mundo esqueceu
aguardava o chegar inevitável da noite
folheando recentes obituários
no encontrar dos nomes familiares
Os ossos da eternidade já pesavam
em seus ombros levemente arqueados
enquanto presenciava sempre
o extinguir das tardes mortas
no cerrar das luminosidades escassas
pelo despertar insone dos postes
E quando chegada às noites
voltava derrotado para a cama
com a confiança inabalável dos devotos
de que amanhã ainda a esperaria
pelos próximos trinta anos
ou mais
Joaquim Cesário de Mello
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais
Em meio a livros imaginários
decifrava trovas de amor
no caçar dos versos perfeitos
que nenhum Dante
Camões ou Shakespeare
jamais poderia ter feito
Leria quantidade maior de escritos e papiros
que sequer a Biblioteca de Alexandria possuía
Percorreria os imensos corredores dos anos
que nem o próprio Matusalém conseguiu
Sobreviveria a imortalidade
mais que a soma de todos os deuses
que os milênios outrora soterraram
E ainda assim a esperaria
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais
Sentado no canto invisível
daquele lugar que o mundo esqueceu
aguardava o chegar inevitável da noite
folheando recentes obituários
no encontrar dos nomes familiares
Os ossos da eternidade já pesavam
em seus ombros levemente arqueados
enquanto presenciava sempre
o extinguir das tardes mortas
no cerrar das luminosidades escassas
pelo despertar insone dos postes
E quando chegada às noites
voltava derrotado para a cama
com a confiança inabalável dos devotos
de que amanhã ainda a esperaria
pelos próximos trinta anos
ou mais
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 182
PEDRO
Não vou te conhecer
adulto ou velho
alto ou baixo
gordo ou magro
promíscuo ou celibatário
Em minha memória de morto
você será sempre criança
e eu nas tuas lembranças
serei eternos cheiros de cigarros
Joaquim Cesário de Mello
adulto ou velho
alto ou baixo
gordo ou magro
promíscuo ou celibatário
Em minha memória de morto
você será sempre criança
e eu nas tuas lembranças
serei eternos cheiros de cigarros
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 203
AMOR AETERNUS
Quando ela me deixou
eu mal tinha vinte e um anos
e um poema em mim foi rasgado
Chorei três dias sem parar
pensei até em me matar
mas covarde segui com a vida
assinei a carteira e fui trabalhar
Quando ela me deixou
a eternidade lhe acompanhou
e eu fiquei no meu passado
na certeza de sempre lhe esperar
Passado três vezes vinte um anos
eu mal tenho o que recordar
e aquele poema despedaçado
nunca mais foi encontrado
Como era mesmo o seu sobrenome?
Joaquim Cesário de Mello
eu mal tinha vinte e um anos
e um poema em mim foi rasgado
Chorei três dias sem parar
pensei até em me matar
mas covarde segui com a vida
assinei a carteira e fui trabalhar
Quando ela me deixou
a eternidade lhe acompanhou
e eu fiquei no meu passado
na certeza de sempre lhe esperar
Passado três vezes vinte um anos
eu mal tenho o que recordar
e aquele poema despedaçado
nunca mais foi encontrado
Como era mesmo o seu sobrenome?
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 59
COM AMOR, JOAQUIM
Quisera escrever uma carta
que sei jamais farei
para revelar murmurante
meus segredos mais miúdos
Confesso
espreito-te pelas frestas do cotidiano
(naquele dia em outubro passado
sem que sequer desses conta
furtei de ti o olhar de entardecer
com que absortas miravas o céu
como quem cata naturalmente anjos)
Até mesmo
nos momentos dos teus banhos
tantas vezes escutei por detrás da porta
o teu adornar de essências e espumas
e invejei
(ah, deus sabe como invejei!)
a água que percorria
acariciante teu corpo
como um amante em abraços
tão íntimos e úmidos
que nunca dei
Quisera escrever esta carta
que sei jamais farei
Joaquim Cesário de Mello
que sei jamais farei
para revelar murmurante
meus segredos mais miúdos
Confesso
espreito-te pelas frestas do cotidiano
(naquele dia em outubro passado
sem que sequer desses conta
furtei de ti o olhar de entardecer
com que absortas miravas o céu
como quem cata naturalmente anjos)
Até mesmo
nos momentos dos teus banhos
tantas vezes escutei por detrás da porta
o teu adornar de essências e espumas
e invejei
(ah, deus sabe como invejei!)
a água que percorria
acariciante teu corpo
como um amante em abraços
tão íntimos e úmidos
que nunca dei
Quisera escrever esta carta
que sei jamais farei
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 25
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE
Apaixonei-me em uma sala de cinema
eu sentado na poltrona
ela sorrindo para sempre na tela
Assisti ao meu filme
tantas vezes incontáveis
e ela estava de novo ali
sorrindo com seus dentes brancos
mais que perfeitos para mim
Li e reli
tudo sobre ela
sua cor preferida
o que comia
o que dizia
e quem levaria
para uma ilha deserta
As paredes do meu quarto
se transformaram em álbuns de fotografias
e só dormia cercado por ela
que levava para os sonhos
embora deles não me lembre nada
Sei o seu signo
que meu horóscopo diz ser incompatível
conheço todos seus namorados
os dois casamentos acabados
e do seu único filho que morreu
em um trágico acidente de moto
Do meu eterno amor
vejo hoje no iPad
que morreu sozinha
de morte não divulgada
aos 71 anos de idade
Nem tinha me dado conta
que a vi pela primeira vez
metade de um século atrás
O amor não tem relógios
nem comemora aniversários
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 175
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JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO, natural de Recife (PE), psicólogo,
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).