despedida.
_tuliodias
Bom, me endosso a cada vez mais escrever uma carta de despedida. Despedida de quê? Pra quê? Pra quem? Não tem tudo que ama mas nem ama tudo que tem. Eu me desdenho, me soterro, me afogo, não me acaloro. Quando penso que vou, volto. Quando penso que grito, me calo. Quando penso que ando, me agacho. Estou farto, farto como uma pós ceia de natal, farto como um pulmão cheio de água após estar imerso no rio Goose. Confesso-lhes, são longevos e terríveis dias onde meu labor interno se exausta em me auto fazer bem, mas, assim como tudo que começa, eu paro. Eu paro por ser machucado, por não ser amado, por estar à margem, por ser desprezado. Eu conheci o desprezo, o toquei, o beijei e ainda o toco pelos mais variados, tóxicos e insensíveis toques ao meu celular. Como em tantas outras ocasiões, mas sempre como um sentimento novo, eu vejo muito o desprezo, sempre muito, é como se este estivesse agarrado em uma de minhas pernas enquanto eu caminho vagarosamente pelo mesmo caminho que percorrera Dante Alighieri no Inferno da Divina Comédia. Estou exausto do externo, logo, de mim me exausto. As escritas, que estavam acaloradas pela energia da afroncentricidade, agora se resumem como contínuas, lamuriosas e incontáveis lástimas, que preenchem cada pedaço do dito Marco Túlio. O eu lírico sou eu mesmo, eu sofro, as partidas me partem, as partidas me partem, como se já tivesse ido, mas ainda não fui. Como um passo com uma perna, e restara o pé de trás como apoio, eu fui, mas não vou, eu vou, mas não fui. O início é meio instantâneo para o fim. O massivo, protetivo, abrangido lugar do Amor que pensei que meu fora, tornou-se minha perdição. Eu me perdi, fizeram-me me perder. Aonde esta agora você aqui, perto de mim? Onde, onde, onde. Sem as escritas, eu sou devorado, ainda mais devorado, porque elas me permitem falar, por mais que o eu lírico se esconda dentro de marionetes como a de Kankurō, pelas escritas eu grito, não pastoreio, eu grito porque no mundo real não me é permitido gritar, muito pelo contrário, sou forçado a silenciar-me a todo o momento, todo momento. As minhas escritas são um estádio lotado após o gol do time amado, é o amontoado de almas perdidas no fogo do inferno de Dante, é uma sala de aula lotada de uma escola pública na periferia, é o encarceramento de negros dentro de uma cela do sistema prisional brasileiro, não são potentes, são ardentes, porque em mim, me chagam continuamente. Se eu escrevo, é porque a vida muito tem me machucado.
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