Poems List

QUEIMADAS

Os mortos continuam morrendo

no apagar gradual dos meus dias

 

Há os que já se foram afogados

pelas inundações do tempo

tossidos das lembranças como se fossem

resfriados ou fumaças exaladas dos cigarros

 

Deles apenas lembro que os esqueci

no silêncio do interior fundo da não-memória

aquele lugar sem rosto rumor ou nome

onde habitam os sumidos abandonados

deixando em seus sítios agora vagos

velhas covas esperando novos apossados 

 

Em meus pretéritos mais antigos

não me cabem todos os finados

é preciso o cessar de alguns fios

para continuar fiando às lareiras

este tecido tão muito e tanto mal-usado 

 

Mas em mim ainda subsistem incêndios

e o cheiro das carnes queimadas

a me permanecer condenado às saudades

 

Quando por fim o último morto partir

não havendo ninguém mais a lembrar

é que vou então deixar de existir

no debelar das fogueiras

e no vanescer da minha história

Joaquim Cesário de Mello
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ANALÓGICO

Sou analógico

e às vezes até mesmo

um tanto antiquado

 

Meu tempo é o dos ponteiros

dos relógios e das folhas

descartáveis dos calendários

por onde atravesso

com a mesma fome juvenil

a devorar fases e épocas

 

Meus brinquedos continuam

feitos de cordas e de madeiras

e dos alumínios das latas

de leite Ninho

e as minhas roupas 

manchadas de oitis cheiram

a percevejos e ainda lagrimejo

as queimações das lacerdinhas

 

Sigo em frente

com olhares dos meus

vinte e poucos anos

vendo muros pichados de 68

nos outdoors coloridos

das butiques e dos boticários

 

Minhas revoluções e rebeliões

foram apenas não aceitar

virar os anos e fazer aniversários

 

 

Joaquim Cesário de Mello
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INFANTICÍDIO*

Na saliva da tua boca
um filho meu agoniza

(se fosse menina
podia ser Camila)

Joaquim Cesário de Mello


(*) originariamente publicado em 1983
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AO REDOR DA MESA

sentávamo-nos todos
as tias os primos e os ausentes
 
Naquela mesa
mastigávamos o tempo
lambuzando os pães
de infâncias e eternidades

Ao redor da mesa
alimentávamo-nos os corpos
de ovos arroz bifes e saladas
enquanto as almas 
engordavam de felicidade

Naquela mesa 
aprendi as letras as horas
as etiquetas e os rituais
tatuando na memória
rostos ruídos e fantasmas

Ao redor da mesa
passavam-se os dias e os jantares
todos eram felizes, sem saber
que semeávamo-nos 
de nostalgias e saudades 

Qual o destino das mesas
quando se vão os comensais?


Joaquim Cesário de Mello
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OUTRAS HISTÓRIAS

E se eu tivesse brotado na hora errada
na semana seguinte ou num minuto atrás
encontraria o mesmo leite que minha boca
amamentou às 6:47 do dia em que fui gerado? 

Poderia o seio estar mais cansado
de me esperar chegar atrasado
ou me sentiria de igual jeito
se chegasse um tanto antecipado? 

E se por quase pouco não houvesse
caído e nem quebrado o braço
como seria aquele final de tarde
em que passei hospitalizado? 

Seria mais calvo se o espermatozoide
do meu pai atingisse o útero ao lado
e os olhos míopes que sempre trago
se tornariam castanhos claros ou azulados?

E se minha mãe preferisse o anterior namorado
tornar-me-ia comerciante, bancário ou advogado
e como ficariam minhas mãos e esta unha encravada?

E se meu avô não morresse nove meses
e alguns dias antes d’eu nascer
que nome me somaria aos sobrenomes
por ora já suficientemente herdados?

E se eu conhecesse Maria primeiro 
e com ela houvesse casado 
será que até agora estaria ao menos enlaçado
ou será que seria mais feliz divorciado?

Quanto netos hoje contaria
se não acontecesse da minha esposa
ter ficado doente e abortado
e o que teria me decorrido se minha mãe
soubesse nadar e não morresse afogada?

Quem seria hoje se meu pai não fosse poeta
e a casa não vivesse assim cheia de livros espalhados?

Será que eu existiria menos ou somente morreria
no dia em que me for determinado?


Joaquim Cesário de Mello
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TRINTA ANOS OU MAIS

Ele ainda a esperava
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais

Em meio a livros imaginários
decifrava trovas de amor
no caçar dos versos perfeitos
que nenhum Dante
Camões ou Shakespeare 
jamais poderia ter feito

Leria quantidade maior de escritos e papiros
que sequer a Biblioteca de Alexandria possuía

Percorreria os imensos corredores dos anos
que nem o próprio Matusalém conseguiu 

Sobreviveria a imortalidade
mais que a soma de todos os deuses
que os milênios outrora soterraram

E ainda assim a esperaria
todas as tardes às 17 horas
na mesma pequena livraria
que já não existia mais 

Sentado no canto invisível
daquele lugar que o mundo esqueceu
aguardava o chegar inevitável da noite
folheando recentes obituários 
no encontrar dos nomes familiares 

Os ossos da eternidade já pesavam
em seus ombros levemente arqueados
enquanto presenciava sempre 
o extinguir das tardes mortas
no cerrar das luminosidades escassas
pelo despertar insone dos postes

E quando chegada às noites
voltava derrotado para a cama
com a confiança inabalável dos devotos
de que amanhã ainda a esperaria
pelos próximos trinta anos
ou mais

 
Joaquim Cesário de Mello
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PEDRO

Não vou te conhecer

adulto ou velho

alto ou baixo

gordo ou magro

promíscuo ou celibatário

 

Em minha memória de morto

você será sempre criança

e eu nas tuas lembranças

serei eternos cheiros de cigarros



Joaquim Cesário de Mello
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AMOR AETERNUS

Quando ela me deixou
eu mal tinha vinte e um anos
e um poema em mim foi rasgado

Chorei três dias sem parar
pensei até em me matar
mas covarde segui com a vida
assinei a carteira e fui trabalhar

Quando ela me deixou
a eternidade lhe acompanhou
e eu fiquei no meu passado
na certeza de sempre lhe esperar

Passado três vezes vinte um anos
eu mal tenho o que recordar
e aquele poema despedaçado
nunca mais foi encontrado 

Como era mesmo o seu sobrenome?

Joaquim Cesário de Mello
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COM AMOR, JOAQUIM

Quisera escrever uma carta
que sei jamais farei
para revelar murmurante
meus segredos mais miúdos
 
Confesso
espreito-te pelas frestas do cotidiano
(naquele dia em outubro passado
sem que sequer desses conta
furtei de ti o olhar de entardecer
com que absortas miravas o céu
como quem cata naturalmente anjos)

Até mesmo
nos momentos dos teus banhos
tantas vezes escutei por detrás da porta
o teu adornar de essências e espumas
e invejei
(ah, deus sabe como invejei!)
a água que percorria
acariciante teu corpo
como um amante em abraços
tão íntimos e úmidos
que nunca dei

Quisera escrever esta carta
que sei jamais farei

Joaquim Cesário de Mello
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ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE


Apaixonei-me em uma sala de cinema

eu sentado na poltrona

ela sorrindo para sempre na tela

 

Assisti ao meu filme

tantas vezes incontáveis

e ela estava de novo ali

sorrindo com seus dentes brancos

mais que perfeitos para mim

 

Li e reli

tudo sobre ela

sua cor preferida

o que comia

o que dizia

e quem levaria

para uma ilha deserta

 

As paredes do meu quarto

se transformaram em álbuns de fotografias

e só dormia cercado por ela

que levava para os sonhos

embora deles não me lembre nada

 

Sei o seu signo

que meu horóscopo diz ser incompatível

conheço todos seus namorados

os dois casamentos acabados

e do seu único filho que morreu

em um trágico acidente de moto

 

Do meu eterno amor

vejo hoje no iPad

que morreu sozinha

de morte não divulgada

aos 71 anos de idade

 

Nem tinha me dado conta

que a vi pela primeira vez

metade de um século atrás

 

O amor não tem relógios

nem comemora aniversários


Joaquim Cesário de Mello
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